Artigo de opinião | Por Erica Lima Barbosa Aguiar
A eleição de 2026 no Amazonas começa antes da largada oficial com cheiro de disputa histórica, tensão de bastidor e um tabuleiro político onde ninguém pode se declarar vencedor. A pesquisa da Pontual Pesquisas, registrada no TSE sob o nº AM-04177/2026, realizada entre 12 e 27 de maio de 2026, com 3.003 entrevistas, margem de erro de 1,79 ponto percentual e 95% de confiança, não aponta uma coroação. Ela desenha um cenário muito mais perigoso para os pré-candidatos: uma eleição aberta, emocional e altamente estratégica.
E aqui está o ponto central: 2026 não será uma eleição apenas de voto. Será uma eleição de narrativa.
No governo do Amazonas, Omar Aziz (PSD) aparece com 29,1%, Roberto Cidade (União Brasil) com 22,1%, Maria do Carmo (PL) com 20,1% e David Almeida (Avante) com 20% na intenção estimulada. A fotografia mostra vantagem numérica de Omar, mas não permite uma leitura simplista de liderança consolidada. Com esse nível de proximidade entre os demais nomes e uma campanha ainda não oficializada, o que existe hoje é uma disputa em construção.
O dado mais revelador não está apenas em quem aparece na frente. Está em quem carrega mais resistência. David Almeida (Avante) tem 40,3% de rejeição no estado. Omar Aziz (PSD), 22,7%. Maria do Carmo (PL), 16,8%. Roberto Cidade (União Brasil), 12,7%. Em uma eleição curta, emocional e polarizada, rejeição pode pesar tanto quanto intenção de voto. Às vezes, até mais.
É por isso que 2026 no Amazonas parece menos uma corrida de velocidade e mais uma partida de xadrez. Cada movimento errado pode custar caro. Cada imagem mal construída pode virar munição. Cada fala atravessada pode alimentar uma rejeição que, depois, não se controla mais.
Maquiavel ensinou que política é também percepção. Não basta ser forte; é preciso parecer forte no momento certo. Napoleão Bonaparte compreendia a força da emoção coletiva quando dizia que a imaginação governa os homens. E Husserl, ao tratar da experiência e da consciência, ajuda a entender que o eleitor não reage apenas ao fato bruto, mas ao modo como percebe, sente e interpreta esse fato.
No Amazonas, isso é ainda mais evidente
As pesquisas qualitativas realizadas com eleitores de Manaus, periferias, bairros populares, juventude urbana, mulheres, interior e zona rural mostram um padrão: o eleitor amazonense está cansado de promessa fria. Ele quer presença, gesto, cena, símbolo, pertencimento. Quer enxergar o político na rua, no bairro, no ramal, na saúde, na escola, na dor concreta da vida. Quer emoção, mas não qualquer emoção. Quer aquela emoção de novela: enredo, conflito, superação, personagem reconhecível e final possível.
Quem tiver o melhor enredo, leva vantagem
A disputa presidencial ajuda a explicar esse ambiente. No Amazonas, Lula (PT) aparece com 43,7% e Flávio Bolsonaro (PL) com 37,2% na intenção estimulada para presidente. Mas a rejeição mostra o tamanho da guerra emocional: Lula (PT) tem 42,8% de rejeição e Flávio Bolsonaro (PL), 40%. Ou seja, o eleitor está dividido não apenas por preferência, mas por afeto, rejeição, memória e identidade política.
Esse mesmo fenômeno já aparece no debate nacional. Levantamentos recentes sobre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mostram oscilação, disputa apertada e um eleitorado ainda sensível a acontecimentos, narrativas e crises de imagem. A Folha registrou que Lula abriu vantagem em simulação de segundo turno contra Flávio em pesquisa Meio Ideia divulgada em maio, enquanto pesquisas anteriores já apontavam cenário competitivo e eleitorado com possibilidade de mudança.
No Amazonas, a visita de Lula a Manaus também movimentou os bastidores e reforçou leituras sobre alianças, palanques e pré-candidaturas locais. O Convergente registrou a repercussão política da agenda presidencial, incluindo jantar reservado, discursos de aliados e sinais de apoio nos bastidores.
No Senado, o quadro também reforça a tese da eleição emocional. Eduardo Braga (MDB) aparece com 25,4%, Alberto Neto (PL) com 16,2%, Wilson Lima (União Brasil) com 14,9%, Marcos Rotta (Avante) com 10,5%, Plínio Valério (PSDB) com 9,3% e Marcelo Ramos (PT) com 5,9%. Mas, novamente, a rejeição pesa: Wilson Lima (União Brasil) chega a 38,3%, Eduardo Braga (MDB) tem 14,4%, Alberto Neto (PL) aparece com 12,7%, Marcelo Ramos (PT) com 8,6%, Marcos Rotta (Avante) com 8,6% e Plínio Valério (PSDB) com 8,1%.
Esse dado mostra uma verdade incômoda: não basta ter voto lembrado. É preciso ter espaço para crescer sem bater no teto da rejeição.
A eleição de 2026 no Amazonas será difícil porque mistura quatro elementos explosivos: memória política, fadiga do eleitor, polarização nacional e disputa local por imagem. O eleitor quer alguém que pareça preparado, mas também humano. Quer liderança, mas rejeita arrogância. Quer força, mas desconfia de encenação. Quer renovação, mas cobra experiência. Quer emoção, mas pune artificialidade.
É nesse ponto que muitos pré-candidatos erram. Acham que campanha é apenas estrutura, tempo de TV, aliança e dinheiro. Tudo isso importa. Mas, em uma eleição emocional, a campanha que não toca o eleitor vira apenas propaganda. E propaganda sem emoção não atravessa o ruído.
O Amazonas não está diante de uma eleição comum. Está diante de uma eleição histórica porque nenhum nome entra absoluto. Todos têm chance. Todos têm fragilidade. Todos podem crescer. Todos podem cair. A largada oficial ainda nem foi dada, mas nos bastidores os ânimos já estão acirrados, as vaidades já estão expostas e alguns atores já demonstram sinais de estresse antes mesmo do jogo começar.
O vencedor de 2026 talvez não seja apenas quem falar mais alto. Será quem souber escutar melhor. Quem controlar a própria rejeição. Quem construir uma narrativa coerente. Quem emocionar sem parecer falso. Quem tiver frieza para estudar o eleitor e sensibilidade para chegar até ele.
No tabuleiro do Amazonas, a peça mais importante não é o rei, a rainha, o cavalo ou a torre.
É o eleitor
E o eleitor amazonense já deu o recado: quer emoção, quer presença e quer um enredo que faça sentido para sua vida real.
A eleição de 2026 será vencida por quem entender que, no Amazonas, voto não nasce apenas da razão. Nasce da memória, da dor, da esperança e da imagem que fica.
Sobre a autora
Érica Lima Barbosa Aguiar é jornalista, pesquisadora qualitativa e analista de discurso político, com mais de 15 anos de atuação em pesquisas na Amazônia. Sua trajetória é marcada pela escuta e interpretação do comportamento do eleitor amazonense, especialmente em Manaus, no interior e nas comunidades do Estado. Ao longo dos anos, desenvolveu análises sobre percepção política, rejeição, imagem pública, narrativas eleitorais e emoções que influenciam o voto no Amazonas. É também escritora e vice – presidente da AJEB AM e CEO do site O Convergente e Convergente Pesquisa.
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Há mais de 15 anos, pesquiso o discurso dos eleitores do Estado do Amazonas, interpretando o que está por trás das falas, dos silêncios, das rejeições e das emoções que movem o voto na Amazônia.
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