“Estamos produzindo nossos próprios TDAHs”, afirma a psicóloga Cristina Linhares



Em entrevista, a especialista fala sobre TikTok, autodiagnóstico, medicalização da vida, terapia por IA e sintomas de uma geração hiperestimulada

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Publicado em 24 de maio de 2026 às 05:00

Cristina Linhares
Cristina Linhares Crédito: Divulgação

Nunca se falou tanto sobre saúde mental e, desde as Naus dos Loucos, talvez nunca se tenha errado tanto em relação a ela. Nestes tempos, diagnósticos viraram identidade em rede social e toda hora aparece um “influenciador” para “explicar” – com nomes técnicos – simples comportamentos, cansaços e traços de personalidade. >

Agora, adolescentes chegam ao consultório convencidos de que têm TDAH depois de vídeos do TikTok, adultos fazem autodiagnósticos em sequência, milhares de “profissionais” de formação duvidosa são jogados diariamente no mercado e algoritmos prometem substituir a escuta clínica. >

Diante disso, a psicóloga Cristina Linhares faz alguns alertas. Entre eles, que o diagnóstico correto é importante e necessário, porém parte do sofrimento contemporâneo não nasce necessariamente de transtornos psíquicos, mas de um estilo de vida que anda “destreinando” nossos cérebros.>

Com quase 30 anos de experiência, Cristina fala sobre a transformação do diagnóstico em linguagem de pertencimento, critica a banalização da escuta terapêutica nas redes sociais e afirma que muita gente está “produzindo os próprios sintomas”. Nesta entrevista, ela também discute o adoecimento dos adolescentes, a crise da escola tradicional, o excesso de medicalização da vida cotidiana e os riscos de terceirizar autoconhecimento para inteligências artificiais que cometem erros grotescos. >

Flavia AzevedoAntigamente, esconder um diagnóstico era quase uma regra. Hoje, ele aparece na bio das redes sociais e muitas vezes funciona como identidade pública. Em algum momento desse caminho entre extremos, o diagnóstico deixou de ser apenas uma ferramenta clínica e passou a funcionar também como linguagem de pertencimento. É positiva essa troca do estigma pelo status?>

Cristina Linhares – Eu sou uma defensora do diagnóstico. Eu acho que um diagnóstico bem feito norteia uma conduta bem feita e uma conduta bem feita pode levar a uma mudança de vida muito positiva para o sujeito. Mas a adoção do diagnóstico como identidade é muito reducionista. Há temperamentos, personalidades, funcionamentos psíquicos que muitas vezes contemplam um diagnóstico, dois ou três. Além disso, todas as pessoas são muitas coisas além do funcionamento psíquico. Então eu acho que tornar a identidade igual a transtorno psíquico é bastante reducionista e até serve, muitas vezes, para justificar comportamentos pelos quais as pessoas deveriam se responsabilizar. Se eu tenho um diagnóstico, eu tenho que buscar um tratamento adequado para a minha questão, ao invés de justificar o meu comportamento a partir do meu sintoma ou do meu diagnóstico.>

Muitas vezes, esses “diagnósticos” chegam pelo TikTok, por exemplo, que virou uma espécie de consultório, onde vídeos de segundos convencem milhões de pessoas de que distração, procrastinação ou cansaço são sinais inequívocos de transtornos. O que torna essa lógica tão sedutora hoje?>

Eu acho que ela é sedutora porque ela é simplista, porque as pessoas estão querendo soluções rápidas, práticas, imediatas. Então os pacientes, quando vêm ao consultório, já se consultaram antes nas redes sociais. Eles já vêm com suspeitas diagnósticas elaboradas a partir das redes sociais. Isso acontece muito com adolescentes. Aí eu vou avaliar essa pessoa. Quando avalio, percebo cansaço, rotina desregulada, sono desregulado. Percebo que essa pessoa é multitarefa, faz muitas coisas ao mesmo tempo, estuda assistindo outra coisa, fala com uma pessoa enquanto fala com outra, ouvindo música e estudando.>

Então o que acontece? As pessoas chegam já identificadas com sintomas que ouviram nas redes sociais e já chegam se intitulando desatentas ou com altas habilidades e assim por diante. Em relação ao TDAH, por exemplo, a maior parte das pessoas que a gente recebe hoje com suspeita de TDAH não tem TDAH. São pessoas exaustas. São pessoas que estão destreinando o cérebro com vídeos curtos, rolando tela incessantemente. São pessoas que, na hora do descanso, cansam o cérebro com rede social. Hoje muitas pessoas “produzem” os seus próprios TDAHs, produzem os seus próprios sintomas porque estão absolutamente exaustas por vários motivos. Um deles é porque o descanso virou rede social.>

Como é dizer a alguém que talvez o problema não seja um transtorno, mas um estilo de vida insustentável?>

Eu sou muito franca e direta. Inclusive, para avaliar bem essa pessoa, eu preciso que ela tenha um mínimo de descanso e de rotina positiva: sono reparador, sol, horário de dormir e horário de acordar. Com o cortisol desregulado, que é um hormônio relacionado ao estresse, você vai ter uma série de alterações que levam a prejuízo atencional.>

É preciso corrigir primeiro horário de dormir, que precisa ser próximo das 22h, horário de acordar, que precisa ser no máximo às 9h. Não adianta dormir oito horas fora desse horário, porque a gente tem um relógio biológico, o ciclo circadiano, que ajuda a regular o sono e a produção adequada de hormônios. Se a gente desregula esse relógio interno, começa a produzir um monte de sintomas. Quando alguém entra no consultório com essa queixa e a gente percebe uma rotina ruim, uma rotina desorganizada, a gente precisa começar do começo até para conseguir avaliar essa pessoa.>

Além dessa rotina e dos efeitos dela, existe hoje também uma dificuldade cultural de aceitar experiências humanas normais como tédio, ansiedade, frustração, tristeza ou dificuldade de concentração? >

Sim e o resultado é que a gente está destreinando o cérebro para sentir coisas que são necessárias. A gente está ensinando ao cérebro que não dá conta de sentir medo, dor, tristeza, tédio, angústia. Então o que a gente está fazendo hoje, com essa medicalização imensa em relação aos sintomas, é passar a não suportar coisas que precisariam ser suportadas porque fazem parte da vida.>

Com isso, a gente aumenta a desregulação emocional e diminui a nossa capacidade de regulação emocional. A capacidade de regulação emocional exige que eu tolere minimamente as minhas emoções, tolere sentir ansiedade para que isso gere um fenômeno chamado habituação.>

Esse é um fenômeno muito importante que acontece quando eu identifico o meu sentimento, identifico a minha emoção e suporto ficar com ela para entender o que está acontecendo comigo, ao invés de buscar um alívio imediato que vai impedir ou limitar a minha experiência com aquela emoção, fazendo aquela emoção se calar. Com isso, a gente vai ficando destreinado para viver as coisas da vida. Vai ficando destreinado para viver obstáculos e dificuldades que todo mundo enfrenta. >

Cristina Linhares por Divulgação

Hoje proliferam cursos online que prometem formar “especialistas em saúde mental” em poucos meses. Como você vê o risco de banalização da escuta clínica num campo que exige formação longa e responsabilidade ética?>

Existe um mercado muito importante vindo da saúde mental para formar profissionais de outras áreas em terapeutas. E isso é muito grave, porque profissionais de outras áreas são capacitados para essas outras áreas. Em curso de especialização não se forma um psicoterapeuta.>

São necessários cinco anos de Psicologia ou seis anos de Medicina e, depois disso, uma especialização em uma das áreas para se formar um psicoterapeuta. A Psicologia clínica é uma dessas áreas. Essa formação é longa e complexa. Ela envolve fisiologia, farmacologia, psicopatologia. São conteúdos extremamente complexos ministrados nos cursos de Psicologia e Medicina. Eles não são ministrados em outros cursos.>

Então há um risco imenso em se formar terapeutas que não são psicólogos nem médicos, justamente porque as conduções não serão baseadas em diagnósticos. E quando as conduções não são baseadas em diagnósticos, elas estão baseadas em nada.>

Principalmente nas escolas, adolescentes inquietos, ansiosos ou incapazes de sustentar atenção por muito tempo são rapidamente classificados hoje como “problemáticos” ou “neurodivergentes”. Estamos patologizando comportamentos que fazem parte da adolescência contemporânea ou os adolescentes realmente estão adoecendo?>

Eu começo dizendo que a escola não está preparada para o adolescente no momento atual. É uma escola ultrapassada, conteudista, que prende o aluno em sala de aula, exige um aprendizagem de cima para baixo e não pela via da experiência. O mundo mudou, o jovem também mudou e a escola precisa mudar. Senão a gente corre o risco de chamar todo mundo de desatento. Porque, se aquele conteúdo está extremamente desinteressante, as pessoas ficarão desatentas. Isso acontece com qualquer um de nós.>

Se a gente for olhar o volume que esses meninos estudam pro ENEM, é uma exigência absurda. Isso também produz adolescentes desatentos, porque eles estão desconectados daquele conteúdo e da forma como esse conteúdo é apresentado.>

Então acho que o primeiro ponto é que a escola precisa se modificar. O jovem tem acesso a diversos conteúdos. O importante agora é desenvolver posicionamento crítico em relação ao conteúdo. A gente precisa fazer com que eles falem, conversem, discutam, interajam. A escola deveria ser um espaço de interação.>

Um dos grandes prejuízos da tecnologia é a diminuição da interação entre as pessoas, especialmente entre os jovens. Então a escola deveria ser um lugar facilitador dessa interação. Eu não quero eles calados, quietos, sentados, enquanto o professor fica em pé despejando conteúdo.>

Enquanto a escola não muda, o que mães e pais podem fazer para reduzir esse prejuízo?>

Conversar. Almoçar, jantar, tomar café junto. Conversar no caminho da escola, conversar na hora das refeições. Acho que a primeira coisa que a gente precisa fazer é acabar com essa ideia de que cada um come num horário, esquenta sua comida e vai para um canto diferente da casa. A convivência se perdeu e esses momentos são importantes para ouvir os filhos, entender o que está acontecendo com eles, participar da vida deles, criar conexão. Porque a realidade deles é muito diferente da nossa.>

A gente precisa se aproximar e falar um pouco a língua deles. Para isso é preciso disponibilidade de tempo para sentar e conversar. Não tentar apenas que o jovem se adapte ao meu mundo, ao meu estilo de vida. O que a gente pode fazer junto? O que existe do mundo dele do qual eu posso me aproximar e gostar de verdade? Eu acho que o jovem é muito hipercriticado.>

O novo instrumento, para todas as idades, agora é a chamada “terapia por IA”. Estamos terceirizando escuta, aconselhamento e autoconhecimento para algoritmos treinados para oferecer respostas rápidas e conforto emocional. Isso representa democratização do cuidado ou um agravamento da superficialidade emocional contemporânea?>

Isso não é democratização do cuidado. A democratização do cuidado vai existir quando você tiver políticas públicas de saúde mental tratando pessoas em grupo, com grupos de conversa, grupos para tratar sintomas e problemas específicos. Essa interação entre os participantes é tão positiva que ela é um dos fatores de melhora em tratamentos em grupo. Então é o oposto do que faz a IA, que deixa o sujeito sozinho, com ele mesmo e com uma inteligência artificial. >

Eu falo isso usando IA. Eu uso bastante, gosto bastante, faço muita pesquisa, leio artigo, resumo, traduzo, organizo leitura. Uso muito para estudar. Então você há de convir que a minha IA é treinada por mim. Ela lê muito artigo científico porque eu a utilizo dessa forma. Mesmo assim, a minha IA comete erros grotescos. Então eu fico preocupada com pessoas leigas usando isso como ferramenta de cuidado emocional. É como se eu fosse fazer consulta em cardiologia, em jornalismo ou em ciência política tendo apenas um conhecimento superficial sobre aquilo. A inteligência artificial é um recurso muito eficaz para estudar e se manter atualizada. Mas isso é completamente diferente de escuta clínica.>


Cristina Linhares é psicóloga formada pela UFBA, mestre em Psicologia pela UnB e especialista em Psicologia Aplicada à Cardiologia pela USP/InCor e em Terapia Cognitivo-Comportamental pela FACCAT-RS. Atua há 30 anos em consultório e é diretora técnica da Cristina Linhares Clínica de Psicologia e Psiquiatria, com 28 anos de atuação. É especialista no tratamento de transtornos de humor, ansiedade e personalidade, com prática baseada em evidências científicas no atendimento de adolescentes e adultos.>

Por @flaviaazevedoalmeida>



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