Planalto dissemina narrativa de que sistema de pagamento mais popular do Brasil estará em risco por causa de decisão dos EUA
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta 6ª feira (29.mai.2026) que medidas dos Estados Unidos contra facções criminosas podem afetar o sistema financeiro brasileiro e “inovações nacionais como o Pix”, que, segundo o Planalto, “incomodam interesses estrangeiros”. A menção ao Pix faz parte da estratégia governista de reagir à decisão dos EUA.
Falar do Pix é mais compreensível do que dizer que classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como terroristas afetam a soberania nacional. Vários integrantes do PT foram às redes sociais disseminar a narrativa de que o Pix está em risco e quem é responsável por isso são os integrantes da família Bolsonaro, sobretudo, o pré-candidato à presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que esteve na Casa Branca nesta semana.
A estratégia de usar o Pix como bode expiatório contra os Bolsonaros está na nota oficial divulgada pelo Palácio do Planalto em resposta ao anúncio do Departamento de Estado norte-americano sobre o enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras.
Segundo o comunicado brasileiro, ações “não negociadas” podem provocar prejuízos econômicos, reduzir a cooperação entre as polícias e atingir ferramentas financeiras nacionais. Não há, entretanto, nada no comunicado dos EUA que faça menção a uma iminente investida contra o Pix ou o sistema financeiro brasileiro. Leia a íntegra (PDF – 352 kB).
O que existe, na realidade, é uma liberdade maior para órgãos de controle e repressão norte-americanos atuarem contra instituições financeiras que deem guarida a grupos terroristas. É improvável que as autoridades dos Estados Unidos pretendam bloquear por completo um sistema de uso nacional como o Pix para atingir apenas líderes de facções criminosas.
Há situações também em que a Casa Branca considera o uso da força em nações estrangeiras para combater o que considera organizações terroristas, mas antes, de fato, sempre há preferência por ações de estrangulamento econômico desses grupos, interrompendo “os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos”, como diz o comunicado norte-americano.
O Pix, de fato, tem uma vulnerabilidade porque usa o sistema de processamento em nuvem comprando os serviços de uma empresa norte-americana. Todos os dados do Pix passam pelos computadores da AWS (Amazon Web Services), da norte-americana Amazon. Não existe no Brasil hoje nenhuma empresa com capacidade de armazenamento equiparável ao volume de informações processadas pelas 3 maiores empresas do setor no planeta: Amazon, Google e Microsoft. A lei norte-americana permite em alguns casos que o governo do país determine a essas big techs que interrompam o fornecimento de serviços ou cedam informações, ainda que sejam dados de algum país estrangeiro.
A 1ª reação do governo à decisão dos EUA foi evocar novamente o discurso de defesa da soberania nacional. Há dúvidas, porém, se o argumento seria novamente eficaz como foi na época do tarifaço, já que agora a discussão passa pelo principal problema enfrentado pelos eleitores: a falta de segurança pública.
Ao perceber isso, os governistas começaram a incluir em suas declarações riscos intangíveis, mas que são mais compreensíveis pela população como, por exemplo, o fim do Pix.
Essa estratégia de embaralhar na cabeça dos eleitores alguma história não comprovada sobre o Pix já foi usada pela direita quando o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) viralizou nas redes sociais em janeiro de 2025 ao dizer que o mecanismo de pagamento seria monitorado e taxado.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse em entrevista à TV Globo que o Pix é o “maior símbolo da soberania financeira do Brasil” e que se for acusado de ser usado pelo crime organizado, pode estar sob ameaça.
“O que vamos fazer é garantir que o Pix siga funcionando disponível a toda a população porque o Pix é o símbolo da nossa soberania financeira”, disse
Na nota oficial, o governo brasileiro também disse que integrantes da família Bolsonaro incentivam a interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil. O Planalto classificou como “deplorável” a atuação de integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos. Ele se refere a Flávio e Eduardo Bolsonaro (PL).
O texto afirma ainda que o Brasil mantém cooperação internacional no combate ao crime organizado. Informou que Lula apresentou, em abril, uma proposta de parceria ao governo norte-americano voltada à inteligência policial, combate à lavagem de dinheiro e tráfico internacional de armas.
O governo disse que considera a soberania nacional “inegociável” e que o combate às facções seguirá sendo conduzido pelas instituições brasileiras.
EUA X Pix
A preocupação do governo com o Pix ganhou novo peso depois da decisão dos EUA sobre o PCC e o CV, mas a tensão entre os 2 países em torno do sistema brasileiro de pagamentos já existia antes no campo econômico e concorrencial.
O relatório anual do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), por exemplo, questiona o fato de o Banco Central criar, operar e regular o Pix ao mesmo tempo. Avalia que essa dinâmica pode reduzir o espaço de mercado para empresas estrangeiras de pagamentos, como Visa e Mastercard, ao dar tratamento preferencial à plataforma.
O texto também observa que instituições financeiras com mais de 500 mil contas são obrigadas a oferecer o Pix, o que, na avaliação americana, pode criar desvantagem competitiva para fornecedores externos de serviços de pagamento eletrônico.
A investigação do USTR permanece aberta.
Em discurso recente, Lula declarou: “Ele [Donald Trump] disse que [o Pix] distorce o comércio internacional porque cria problema para a moeda dele. O que é importante a gente dizer pra quem quiser nos ouvir: o Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar”.
No ano passado, a administração Trump impôs tarifas elevadas sobre produtos brasileiros. Chegou em até 50% em itens como café, carne e aço. Também abriu uma investigação sob a Seção 301 da lei comercial dos EUA para apurar eventuais práticas discriminatórias do Brasil em setores como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico.
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