“Bolotas” acima de 3 centímetros na imagem também não valeriam para o estudo. Com um tamanhão desses, provavelmente é câncer e ponto. O problema é que, com nódulos menores, as pessoas voltam para casa tranquilas. Ainda mais pensando que 40% dos participantes nunca acenderam um cigarro na vida. Entre o restante, 45% tinham sido fumantes no passado e apenas 15% continuavam dando suas tragadas. “Ainda assim, a maioria, ou 70%, não tinha sinais de DPOC, a doença pulmonar obstrutiva crônica. Por ser uma inflamação constante, ela aumenta o risco de tumores”, observa Lopes.
Com esse perfil, costuma-se achar que aquele nódulo não deve ser nada. Ah, sim, 78,2% dos participantes também não tinham casos de câncer de pulmão na família (se bem que o histórico familiar pesa menos nesse tipo de tumor). Indagados se tiveram uma infecção respiratória para justificar a imagem, eles podem ter se lembrado de algum episódio. Conclusão precipitada: o achado incidental foi por conta daquilo.
Porém, os pesquisadores resolveram acompanhar todo mundo com o nodulozinho fingindo-se de besta por dois anos. O resultado surpreendeu: 15% deles eram câncer de pulmão. Por que o espanto? Simples: quando os médicos fazem um rastreamento ativo, isto é, quando pedem exames para a população de alto risco, com mais de 50 anos e fumantes inveterados, eles encontram resultado positivo para câncer em apenas 2,5% dos pacientes. “Daí que os 15% são muita coisa”, nota Danilo Lopes.
A sugestão do trabalho é clara: será que não deveria ser dada mais atenção a esses nódulos menores, encontrados por acaso? Até porque, entre os 82 participantes do estudo diagnosticados com tumor maligno, quatro em cada dez estavam no estágio 1 do câncer, quando a chance de sobrevida em cinco anos supera os 90%.
Esse dado contrasta com uma realidade sufocante: de todos os cânceres, o de pulmão é o que mais mata no Brasil. Neste ano, de acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer) devem surgir 35.380 novos casos e ser registradas 32.400 mortes. Feitas as contas, o balanço é cruel.
Perda de tempo
“O número gigante de mortes indica que estamos fazendo um péssimo trabalho para flagrar o câncer de pulmão precocemente”, opina o diretor médico da AstraZeneca. “Talvez valorizar esses nódulos achados incidentalmente seja uma forma inteligente de conseguir isso.”













