247 – A circulação de vírus perigosos acende alerta no Brasil em 2026, e especialistas apontam a influenza A como o maior risco prático para a população, em razão da transmissão respiratória, da baixa cobertura vacinal e da pressão sobre os serviços de saúde, segundo o G1.
Embora vírus como ebola e hantavírus apresentem alta letalidade, infectologistas destacam que o grau de ameaça à população depende também da facilidade de transmissão, da existência de vacinas, da presença no território nacional e da capacidade de resposta do sistema de saúde. Entre os agentes sob maior vigilância estão ebola, hantavírus, influenza A, poliomielite e mpox.
Nem sempre o vírus que mais mata proporcionalmente é o que oferece maior risco coletivo. Um patógeno menos letal, mas altamente transmissível, pode atingir um número muito maior de pessoas, afetar grupos vulneráveis e sobrecarregar hospitais, prejudicando inclusive o atendimento de outras doenças.

Ebola Bundibugyo preocupa por ausência de vacina específica
O surto atual de ebola chama atenção por envolver a cepa Bundibugyo, uma das variantes da família ebola capazes de infectar seres humanos e considerada rara. Diferentemente da epidemia registrada entre 2014 e 2016 na África Ocidental, quando circularam sobretudo casos associados à cepa Zaire, não há vacina aprovada nem anticorpos monoclonais eficazes contra a variante agora em circulação.
As ferramentas desenvolvidas depois da crise sanitária passada, como o imunizante Ervebo e terapias com anticorpos monoclonais, foram concebidas para combater a cepa Zaire. Por isso, a eventual chegada de um caso importado ao Brasil exigiria uma resposta altamente especializada.
O infectologista Antônio Carlos Bandeira, assessor técnico da Vigilância Epidemiológica do Estado da Bahia, alerta que um cenário crítico seria o de um viajante ou trabalhador que passasse por áreas afetadas, fosse infectado, embarcasse ainda sem sintomas e chegasse ao Brasil dentro do período de incubação, que pode variar de dois a 21 dias.
Segundo Bandeira, a estrutura necessária para atender um caso confirmado de ebola vai muito além do isolamento hospitalar convencional. O manejo exige sala de preparação, antessala de acesso e quarto com pressão negativa, além de fluxo separado para entrada e saída dos profissionais de saúde, com banho integral e descarte seguro dos equipamentos usados.
Sem esse tipo de instalação, cresce o risco de contaminação de trabalhadores da saúde. O especialista recorda que, em 2014, profissionais em países europeus foram infectados mesmo utilizando equipamentos de proteção individual tradicionais.
Apesar disso, Luana Araújo, infectologista e mestre em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins, avalia que o risco global da cepa Bundibugyo é limitado por características próprias do vírus. A transmissão não ocorre pelo ar, mas por contato direto com sangue ou secreções de pessoas doentes. Além disso, a alta letalidade tende a reduzir rapidamente as cadeias de transmissão.
André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e responsável pela área de Infectologia da Rede Américas, lembra que o Brasil não registrou casos confirmados nem durante o maior surto de ebola já documentado. As principais recomendações de precaução seguem concentradas nas regiões internas da República Democrática do Congo e em áreas de fronteira.
Para a rotina da população brasileira, pouco muda para quem não viaja à República Democrática do Congo ou a Uganda. Já pessoas que forem a essas regiões devem evitar contato com pacientes doentes, registrar a viagem junto ao consulado e informar o histórico de deslocamento ao procurar atendimento médico caso apresentem febre até 21 dias após o retorno.
Hantavírus tem alta letalidade, mas transmissão limitada
O hantavírus apresenta taxa de letalidade elevada no Brasil, estimada entre 30% e 50%, mas não representa uma ameaça ampla para a população urbana. A razão está na forma de transmissão: no país, o contágio ocorre pela inalação de aerossóis formados a partir de fezes e urina de roedores silvestres, sobretudo em áreas rurais ou ambientes fechados contaminados.
André Bon explica que há diversos tipos de hantavírus no mundo. O único reconhecido por transmissão entre humanos é o vírus Andes, restrito à Argentina e ao Chile, associado também a um surto recente em um navio cruzeiro. As variantes em circulação no Brasil, segundo o especialista, não passam de uma pessoa para outra.
Luana Araújo ressalta que a gravidade do hantavírus precisa ser interpretada junto com sua baixa capacidade de disseminação. Apesar da alta letalidade, o vírus depende de uma exposição ambiental específica e não tem o mesmo potencial de espalhamento de doenças respiratórias, como a influenza.
Bandeira acrescenta que, mesmo em situações envolvendo o vírus Andes, a transmissão em ambientes abertos é baixa e exige contato próximo e prolongado com o paciente. Quando os casos são identificados e isolados, a possibilidade de disseminação ampla diminui de forma significativa.
Na prática, o risco se concentra em galpões, depósitos, casas de campo fechadas por longos períodos e ambientes com presença de roedores. A recomendação é não varrer esses locais a seco, usar máscara PFF2 e luvas, umedecer o piso antes da limpeza e evitar a formação de partículas suspensas no ar.
Influenza A é a ameaça mais concreta no Brasil
Entre os vírus analisados, a influenza A é apontada pelos três especialistas como a principal ameaça prática para os brasileiros. A explicação não está em uma letalidade proporcional maior, mas na facilidade de transmissão por gotículas respiratórias, no grande número de pessoas expostas e na pressão exercida sobre um sistema de saúde já sobrecarregado.
Luana Araújo resume o risco da doença ao afirmar: “a influenza é o vírus vizinho, o que está ali ao lado, o que chega à maioria das pessoas dentro do mesmo território e causa desfechos graves sem parecer, à primeira vista, uma ameaça dramática”.
A especialista destaca que a gripe costuma ser subestimada culturalmente, o que favorece sua propagação. Pessoas vacinadas ou não, com sintomas leves ou ainda no início do quadro, podem transmitir o vírus em ambientes compartilhados.
Em 2026, a situação foi agravada pela circulação de uma cepa H3N2 com menor resposta à proteção vacinal. Como as vacinas contra influenza são produzidas com meses de antecedência, a composição depende de previsões sobre quais cepas terão maior circulação. Quando o vírus toma um caminho evolutivo diferente, a efetividade do imunizante pode ser reduzida.
A combinação entre cobertura vacinal abaixo do ideal e menor resposta contra a cepa predominante ajuda a explicar o aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave no país. Ainda assim, a vacinação segue sendo uma das principais ferramentas de proteção, especialmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
Bon observa que, apesar da preocupação atual com o H3N2, o subtipo que mais mantém pesquisadores em alerta no longo prazo é o H5N1. Esse vírus já circula entre mamíferos, foi associado à mortandade de leões-marinhos no sul do Brasil e de aves em várias regiões, além de casos esporádicos em humanos nos Estados Unidos e no Canadá.
Até o momento, o H5N1 não desenvolveu transmissão sustentada entre pessoas. No entanto, por estar em mutação constante, uma eventual adaptação para transmissão eficiente entre humanos poderia representar risco pandêmico relevante.
Bandeira defende duas medidas para melhorar a resposta brasileira à influenza. A primeira é ampliar a vacinação pelo Programa Nacional de Imunização, reduzindo a segmentação por faixas etárias e grupos de risco, que pode confundir a população. A segunda é reforçar o treinamento de profissionais de saúde para prescrição precoce de antivirais, como o oseltamivir, mais eficaz quando administrado nos dois primeiros dias de sintomas.
Luana também chama atenção para a vulnerabilidade da rede hospitalar pediátrica. Como a influenza atinge muitas crianças, o aumento de casos graves nessa faixa etária pode pressionar leitos de terapia intensiva, que já são insuficientes diante da demanda.
Para a população, a orientação é buscar vacinação e não tratar sintomas de gripe como um simples resfriado, especialmente nos grupos mais vulneráveis. Ao surgirem sintomas, a procura por atendimento nos dois primeiros dias pode fazer diferença, pois há antiviral disponível nessa janela.
Poliomielite segue controlada, mas queda vacinal preocupa
A poliomielite permanece classificada pela Organização Mundial da Saúde como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional desde 2014, embora o cenário atual seja diferente do passado. Os casos de poliovírus selvagem estão praticamente restritos ao Afeganistão e ao Paquistão.
Hoje, grande parte dos registros globais está associada ao poliovírus derivado da vacina oral. Esse risco levou o Brasil a adotar completamente a vacina inativada injetável, considerada mais segura nesse aspecto e já incorporada ao calendário nacional de imunização.
Bandeira avalia que o risco de reintrodução da poliomielite no Brasil é baixo, devido à cobertura vacinal ainda ampla. No entanto, ele alerta para a redução da adesão ao calendário infantil, impulsionada pelo movimento antivacina e pela perda de percepção de risco em relação a doenças que deixaram de circular de forma intensa.
Luana Araújo reforça que a cobertura brasileira, embora ainda elevada em termos gerais, não é uniforme. Há regiões com bolsões de baixa vacinação, o que pode abrir espaço para a reintrodução do vírus caso ele seja importado.
A recomendação central é verificar a caderneta de vacinação das crianças. A vacina contra a poliomielite é gratuita nos postos de saúde, e a manutenção da cobertura é essencial para preservar a proteção coletiva.
Mpox exige vigilância diante de nova linhagem
A mpox, nome oficial da doença antes conhecida como varíola dos macacos, tem transmissão ativa no Brasil, baixa letalidade e perfil de risco concentrado. Segundo Bandeira, o vírus provoca lesões cutâneas semelhantes às da varíola clássica, mas geralmente com menor gravidade e evolução autolimitada.
As lesões podem aparecer nos membros, no rosto e no abdômen. Essa manifestação visível ajuda no diagnóstico precoce e no isolamento dos casos, o que contribui para interromper cadeias de transmissão.
Bon explica que o padrão de disseminação mudou nos últimos anos. Historicamente associada ao contato físico direto com animais ou pessoas infectadas, a mpox passou a se espalhar de forma mais expressiva por contato próximo durante relações sexuais.
Bandeira destaca, porém, que a doença não deve ser classificada como sexualmente transmissível em sentido estrito. O vírus se propaga pelo contato corporal próximo e prolongado, situação mais frequente em relações íntimas. Foi esse tipo de contato que impulsionou os primeiros surtos registrados no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.
A principal preocupação atual envolve a chegada de casos da linhagem Clade Ib ao Brasil. Essa variante é considerada mais transmissível e associada a quadros mais graves, especialmente em crianças e pessoas imunossuprimidas. Até agora, os registros no país são importados, mas a vigilância permanece ativa.
Bon afirma que o aumento de casos observado no início de 2026 precisa ser acompanhado com atenção. A orientação sobre situações de risco, sobretudo as de contato íntimo, é apontada como medida fundamental para reduzir a circulação do vírus.
No dia a dia, a recomendação é observar lesões na pele semelhantes a bolhas ou feridas, procurar atendimento médico em caso de suspeita e evitar contato próximo com outras pessoas até avaliação profissional. A vigilância, somada à vacinação quando indicada e à comunicação clara sobre riscos, segue como eixo central da resposta sanitária.












