O Amazonas registrou 148.094 empresas inadimplentes em abril deste ano, segundo dados do Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. O número coloca o estado na segunda posição da Região Norte em quantidade de CNPJs negativados, atrás apenas do Pará, que contabilizou 182.519 empresas nessa situação.
Juntas, as empresas amazonenses acumulam 855.727 dívidas negativadas, que somam mais de R$ 3 bilhões. A dívida média por empresa no estado chegou a R$ 20.435,67.
Os dados fazem parte de um cenário nacional de recorde histórico. Em abril, o Brasil atingiu pela primeira vez a marca de 9 milhões de empresas inadimplentes. Ao todo, foram 63,7 milhões de dívidas negativadas, que somaram R$ 220,9 bilhões.
Em entrevista à reportagem de A Crítica, a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, destaca que o resultado observado no Amazonas deve ser analisado dentro de um contexto econômico mais amplo.
“É importante analisar esse resultado dentro de um contexto mais amplo. O estado possui uma das maiores economias da região, concentra um número expressivo de empresas e tem forte participação dos setores de comércio, serviços e indústria, especialmente em torno da Zona Franca de Manaus. Naturalmente, isso aumenta sua exposição ao ciclo econômico e às condições de crédito”, afirmou.
Segundo ela, além das características econômicas do estado, as empresas enfrentam atualmente um ambiente financeiro desafiador.
“Hoje as empresas convivem com um ambiente de crédito ainda bastante restritivo. Mesmo com o início da redução da Selic, os juros permanecem elevados e a concessão de crédito continua seletiva. Ao mesmo tempo, começamos a observar um processo mais evidente de desaceleração da atividade econômica”, explicou.
A economista acrescenta que a combinação entre juros altos, dificuldades de acesso ao crédito e crescimento mais moderado das receitas tem pressionado o caixa das empresas.
“Ou seja, não é apenas uma questão de custo financeiro. As empresas enfrentam simultaneamente dificuldades para acessar crédito, recompor capital de giro e sustentar o faturamento, o que ajuda a explicar a permanência da inadimplência em níveis elevados”, disse.
Empresas enfrentam atualmente um ambiente financeiro desafiador
Setor de serviços lidera inadimplência
Embora a Serasa não divulgue dados setoriais por estado, o levantamento nacional mostra que o setor de serviços concentrou 55,6% das empresas inadimplentes em abril. Na sequência aparecem comércio (32,4%), indústria (8,1%) e setor primário (0,9%).
De acordo com Camila Abdelmalack, essa tendência pode ajudar a compreender o cenário amazonense, especialmente em Manaus e região metropolitana.
“No caso do Amazonas, esses segmentos possuem participação relevante na economia local, especialmente em Manaus e sua região metropolitana. Além disso, a própria estrutura econômica do estado está ligada a cadeias produtivas que dependem fortemente de capital de giro, financiamento e fluxo contínuo de operações”, destacou.
Outro dado apontado pela especialista é que a maior parte das dívidas inadimplidas não está concentrada no sistema bancário.
“Cerca de três quartos das pendências estão fora do sistema financeiro. Nesse grupo estão incluídas obrigações com fornecedores, prestadores de serviços, cooperativas, utilities, telefonia e outros compromissos operacionais das empresas. Isso mostra que a pressão financeira acaba se espalhando por toda a cadeia produtiva e não apenas pela relação das empresas com o sistema bancário”, afirmou.
Micro e pequenas empresas são maioria
O levantamento mostra ainda que as micro e pequenas empresas continuam sendo as mais afetadas pela inadimplência. Em todo o país, o segmento alcançou o recorde de 8,5 milhões de CNPJs negativados em abril, acumulando R$ 191,8 bilhões em dívidas.
Para o Sebrae Amazonas, os números acendem um alerta não apenas para os empresários, mas para toda a economia.
“Este resultado acende um sinal de alerta, pois isto gera impactos negativos na economia para diferentes entes da sociedade”, afirmou a gerente da Unidade de Gestão Estratégica e Inteligência de Dados do Sebrae Amazonas, Socorro Corrêa.
Segundo Corrêa, empresas inadimplentes enfrentam dificuldades para obter crédito, investir e expandir suas operações, enquanto consumidores e governos também sofrem reflexos indiretos da situação. Ela também afirma que muitos casos de inadimplência estão relacionados à gestão financeira.
“A inadimplência empresarial não é falta de cliente, ela decorre, sobretudo, de falhas estruturais na gestão financeira, especialmente no descontrole do fluxo de caixa, na ausência de um bom planejamento e do uso inadequado do crédito.”
Empresas amazonenses acumulam 855.727 dívidas negativadas
Como buscar ajuda
Para ajudar empresários a reorganizar as finanças, o Sebrae oferece cursos, consultorias, conteúdos especializados e apoio ao crédito orientado.
“O Sebrae, como entidade de educação empreendedora, atua exatamente nesse ponto crítico, oferecendo orientações práticas e soluções como: cursos, consultorias, plataformas, conteúdos e apoio ao crédito orientado. Procurem o Sebrae”, orientou Corrêa.
Perspectiva ainda exige cautela
Apesar do início do ciclo de redução dos juros, a Serasa avalia que ainda é cedo para esperar uma queda significativa da inadimplência.
“O início do ciclo de cortes da taxa de juros é positivo, mas ainda insuficiente para alterar de forma significativa as condições de crédito”, afirmou Camila Abdelmalack.
Segundo a economista, o principal desafio dos próximos meses será enfrentar a combinação entre crédito restritivo, desaceleração do faturamento das empresas e os custos estruturais do ambiente de negócios brasileiro.













