Como os grandes gestores de fundos estão preparando seus sucessores


Uma geração de grandes gestores já ultrapassou ou está perto de chegar aos 60 anos de idade. Para o investidor, a pergunta deixa de ser apenas quem entrega retorno hoje e passa a ser quem administrará seu patrimônio quando esses nomes saírem de cena.

Em muitas gestoras, boa parte do valor do negócio ainda está concentrada nos sócios fundadores, que acumulam conhecimento sobre a filosofia de investimento, relacionamento com clientes e construção das carteiras. O desafio, portanto, não é apenas garantir a sucessão da empresa, mas também preservar a capacidade de gestão dos fundos, principal fonte de receita dessas casas.

O sócio-fundador da Kapitalo Investimentos, Carlos Woelz, e o COO Bernardo Feijó, que assumiu as funções do sócio fundador João Carlos Pinho na virada do ano (Foto Tiago Queiroz/Estadão) Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Existem diversas maneiras de encaminhar o tema da sucessão, seja por meio de uma participação societária vinculada ao desempenho, institucionalização das decisões e mecanismos de retenção.

Na Kapitalo, que tem R$ 32 bilhões sob gestão, a fatia na sociedade aumenta ou diminui conforme a alocação diária nos fundos. Um exemplo dessa dinâmica é Bruno Cordeiro, gestor do fundo K10. O executivo tornou-se recentemente o maior sócio da Kapitalo, superando Carlos Woelz e outros fundadores.

Além da ascensão de Bruno Cordeiro como sócio majoritário, a Kapitalo passou recentemente por uma troca no comando executivo. João Carlos Pinho, cofundador da casa ao lado de Woelz, deixou o dia a dia do negócio no fim do ano passado. A função foi assumida por Bernardo Feijó, integrante da sociedade desde 2020.

“Profissionalizamos algumas das tarefas mirando os próximos 10 anos do negócio”, aponta Woelz.

Não ter uma participação societária variável pode ser um problema especialmente de gestoras que lançam verticais do negócio, mas não integram a nova área dentro da sociedade de forma sustentável e flexível desde o início, diz Woelz.

Neste modelo a sucessão não acontece da noite para o dia, mas de forma gradual. Quando você percebeu, já aconteceu. O resultado é que temos uma das menores rotatividades da indústria

Carlos Woelz, sócio fundador da gestora Kapitalo

Mas por mais que haja um processo gradual, que reconheça, dê poder político e econômico para novos sócios, se forem formados dois grupos que tenham opiniões diferentes sobre como conduzir o negócio, a chance de ter um problema é grande, conta o gestor da Kapitalo.

Para prevenir isso, é importante que também haja uma cultura forte na empresa, de forma a atrair pessoas alinhadas a ela. A gestora foi construída com autonomia das mesas de operações. Ainda assim, são 16 anos convivendo com questionamentos entre os profissionais que só foram superados porque grande parte da equipe veio do antigo banco BBM, que tinha a mesma cultura multimesa da Kapitalo, conta Woelz.

Institucionalização

Rodrigo Abbud, diretor de fundos imobiliários do Patria: decisões de investimento são compartilhadas em uma estrutura colegiada (Foto: Daniel Teixeira/Estadão) Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Enquanto a Kapitalo resolveu esse desafio redistribuindo o poder societário ao longo do tempo, outras casas preferem um caminho diferente: institucionalizar o processo de decisão para reduzir a dependência de indivíduos.

Embora Rodrigo Abbud seja o gestor registrado na CVM para todos os fundos imobiliários do Pátria, que tem R$ 38 bilhões sob gestão em fundos imobiliários, as decisões de investimento são compartilhadas em uma estrutura colegiada.

A governança inclui um comitê de investimentos presidido pelo presidente do Patria e o diretor global de produtos, Daniel Sorrentino, além de Abbud e outros executivos da área. O comitê decide operações relevantes, como compras, vendas e locações de maior impacto para o patrimônio dos fundos.

Abaixo do comitê, os gerentes de portfólio setoriais são os responsáveis pela gestão cotidiana dos fundos, conduzindo negociações, estruturação de dívidas e relacionamento com proprietários. O modelo é inspirado na gestora americana Blackstone.

Todos esses processos vão tirando um peso de cima de mim. Não quero que conheçam nossos fundos como se eu fosse o dono. A gestão é do Patria

Rodrigo Abbud, diretor de fundos imobiliários do Patria

A estrutura já vem gerando resultados. Abbud destaca o papel de Laurival Neto, que tem 33 anos e toca, há uma década, os fundos de logística do Patria. Segundo Abbud, Neto conhece profundamente o histórico de cada ativo, desde os antigos proprietários até as características dos terrenos, acumulando um conhecimento considerado difícil de replicar. Hoje, a vertical de logística é a maior da gestora, e Neto está assumindo a função de gestor diretor, um cargo anterior ao da posição de sócio.

Nem todas as gestoras, porém, têm esse pensamento desde o início. Algumas percebem a importância da sucessão depois de enfrentar problemas internos.

Retenção

Marcelo Cabral, sócio fundador da Neo, com os sócios Arnaldo Braga Neto e Ana Paula Pairol, que já têm participação relevante em suas áreas de atuação devido ao modelo de sociedade flexível. (FOTO: Felipe Rau/Estadão) Foto: Felipe Rau/Estadão

Na Neo Investimentos, que tem R$ 3 bilhões sob gestão, cada sócio cuidava de uma área que não se relacionava com as outras. Resultado: quando um deles saiu, a gestora precisou encerrar sua área de operações Long & Short. Posteriormente, o sócio retornou à casa e a área foi reestruturada.

Depois disso, um dos sócios fundadores da gestora, Marcelo Cabral, aponta que chegou a uma estrutura societária flexível que bonifica executivos principalmente por resultados dentro das empresas. Ou seja, não deixa executivos levarem todo o patrimônio com eles caso queiram sair.

“O sócio que sai continua recebendo dividendos e tem a missão de garantir a sua sucessão. Se quiser competir com outra empresa, perde o acordo. Se a Neo ganhar dinheiro, ele ganha mais. Se perder, não ganha e acaba o prazo da bonificação”, afirma.

Em caso de falecimento dos sócios, não há uma transmissão aos herdeiros: a família é obrigada a vender a participação por um valor razoavelmente baixo. “É uma visão menos patrimonialista e mais de geração de valor”, conta o executivo.

A Neo foi fundada em 2003. Arnaldo Braga Neto entrou na gestora em dezembro de 2024, já como sócio, enquanto Ana Paula Pairol ingressou em dezembro de 2015 e foi convidada posteriormente a integrar a sociedade. Hoje, ambos fazem parte de um grupo de 17 sócios, têm participação crescente na casa e já recebem uma parcela relevante do resultado de suas respectivas áreas de negócio.

O modelo de remuneração da Neo combina distribuição por área e dividendos. Do resultado anual da gestora, 75% são distribuídos entre as áreas de negócio, enquanto os 25% restantes são pagos como dividendos, de forma proporcional à participação de cada sócio.

A sucessão ganha mais relevância em um momento no qual a indústria de fundos multimercados passa por um momento delicado, marcado por baixos retornos, aponta Cabral. “Tem muita gente ficando enxuta e o mercado está se transformando. Mais do que nunca, precisamos fazer com que os funcionários tenham cabeça de dono porque a concorrência é grande.”

Case de sucesso

Os sócios da IP Capital: Bruno Barreto, Pedro Andrade, Rodolfo Marinho e Christiano Fosenca: passagens de bastão durou anos e fundos continuam dando bons retornos (Foto Pedro Kirilos/Estadão) Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Como o mercado de capitais é relativamente novo no País, muitas casas ainda não testaram seus modelos. A exceção é a IP Capital, que tem R$ 2,7 bilhões sob gestão e foi a primeira gestora não ligada a bancos no Brasil. Criada há 38 anos, a casa já fez a passagem de bastão de sua gestão e dois principais fundos há mais de 16 anos.

A passagem de bastão no fundo IP Participações aconteceu em 2010, e do Value Hedge em 2008, e os retornos seguiram consistentes. Desde a sua criação, o IP Participações rendeu 653,1% do CDI (até 2010, havia rendido cerca de 280% do CDI), enquanto o Value Hedge, mais defensivo, rendeu 162% do CDI.

Roberto Vinháes, sócio fundador que era focado na gestão, e Christiano Fonseca Filho (o Crico), que liderava a operação e depois focou em pessoas e cultura, fizeram sua transição ao longo de vários anos.

Hoje, Crico ainda atua como conselheiro na IP, liderada por três sócios com mais de 20 anos de casa: Pedro Andrade, Bruno Barreto e Rodolfo Marinho. Além deles, já existe uma nova safra de sócios relevantes liderando a área de investimentos e administrativa.

Na visão dos sócios da IP, a maior parte do mercado brasileiro ainda orbita ao redor de um gestor principal, e descentralizar essa liderança costuma ser o maior desafio do setor. Na casa, profissionais de maior performance são convidados a se tornarem sócios e aumentarem sua participação na empresa.

Hoje, a sociedade reflete a soma da contribuição histórica do sócio combinada à sua expectativa de entrega futura. O sistema, na visão da gestora, alinha a equipe nos bons e maus momentos. “Pensamos em nossas estratégias de investimento em ações com horizonte de pelo menos cinco anos. Ou seja, avaliações focadas no curto prazo não fazem sentido na nossa estratégia”, dizem os sócios.

Embora pratique um modelo de cogestão do seu principal fundo, o IP Participações, os dois principais sócios responsáveis pela gestão do fundo são Andrade e Barreto, por critério de senioridade e tempo de casa.

Mesmo com a cabeça aberta para o tema desde o início da operação, houve aprendizados pelo caminho. A gestora substituiu bônus semestrais, que eram voláteis, por um modelo de participação societária revisado anualmente.

Mas uma coisa não mudou desde a fundação da gestora: a cultura de compartilhamento amplo de conhecimento, que reduziu a dependência de pessoas específicas. Nela, vence o melhor argumento, não o maior ego, e é priorizada a cultura de investimentos em vez de personalidades

Outras gestoras

Procuradas, outras grandes gestoras bastante ligadas à figura de seus fundadores, como Verde, JGP, SPX, Gávea e Consteillation, não quiseram comentar sobre seus planos de sucessão.

A Verde é muito conhecida pela figura de seu fundador, Luís Stuhlberger. O executivo está à frente do fundo desde o seu início, há 29 anos. Ao longo desse tempo, o produto rendeu 4.073% do CDI. Ainda que Stuhlberger continue como sócio e gestor na operação, a recente venda de 50,1% da Verde para a Vinci Compass, que irá adquirir o restante da operação após cinco anos, foi vista por executivos do mercado como uma forma de deixar a sucessão da gestora nas mãos de um grupo maior.

A JGP vendeu a sua área de gestão de patrimônio para o BTG. Já no mês passado, concluiu a venda de sua vertical de crédito para um de seus antigos sócios, Alexandre Muller, ficando apenas com a divisão de fundos multimercados e de ações. Em nota, a JGP esclarece que André Jakurski continua presente no dia a dia da gestão dos fundos e com a mesma dedicação que sempre teve. A casa afirma ainda que além das famílias de fundos de multimercados e ações, possui uma vertical de fundos imobiliários e uma vertical de fundos sustentáveis com aproximadamente R$ 20 bilhões sob gestão.

Na SPX, Rogério Xavier, gestor mais conhecido da casa, era o principal acionista da empresa até ser relegado à gestão de uma parcela muito menor do capital após apresentar vários anos de retornos baixos em seus fundos, segundo a Bloomberg Línea. A agressiva expansão internacional que ele havia orquestrado, foi praticamente cancelada, e Bruno Pandolfi, sócio desde a fundação da empresa, assumiu a gestão da maior parte do patrimônio da gestora.

Na Constellation, fundada em 1998, Florian Bartunek continua a gerir os fundos de ações com objetivo de longo prazo da casa, mas se associou no ano passado à gestora Aster, pertencente a um antigo funcionário, Marcello Silva. O objetivo foi unir forças para competir no mercado até o fluxo maior de investimentos para a bolsa voltar, aponta o Brazil Journal. O principal fundo da casa gerou retorno de mais de 640% desde 2007, enquanto o Ibovespa valorizou 240%.

A Gávea é uma gestora fundada em 2003 pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga com seu primo, Luiz Henrique Fraga. Hoje, ele ocupa a posição de sócio fundador e presidente, enquanto Luiz a de CO-CIO. Gabriel Srour, CIO de fundos multimercados, Amaury Bier, co-CIO de private equity, e Edward Amadeo, economista, e Bernardo Carvalho, diretor executivo, estão no negócio praticamente desde o início.



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