“Fazer previsão sobre qualquer virose é sempre muito delicado”, assume Celso Granato. “Quando o Ministério da Saúde previu 4 milhões de casos de dengue em 2024, eu pensei: esse pessoal está louco, porque, quando a gente tem 1,5 milhão de registros, já é muito, estourando a curva de crescimento esperada para essa doença nos meses mais quentes. No entanto, todos nós estávamos errados”, assume.
Não foram 1,5 milhão, nem 4 milhões de casos em 2024: naquele ano, o Brasil somou 6,6 milhões de diagnósticos de dengue. Já no ano seguinte, quando muita gente ficou aflita aguardando a repetição desse número, a queda nos registros foi de 75%.
Para este ano e na virada para 2027, na mesma linha do povo da Fiocruz, o professor Granato prefere a cautela. Ou seja, prefere que todos se preparem para a possibilidade de o El Niño trazer o pior cenário. Segundo o médico, com o aumento da temperatura e das chuvas no Sudeste e no Sul — região onde, antes, o Aedes não aprontava tanto, mas que ganha asas para invadir com as águas de possíveis enchentes —, a vida do mosquito fica muito facilitada.
“A combinação de temperaturas mais altas e chuvas faz a fêmea botar mais ovos. Os ovos, por sua vez, eclodem mais cedo”, conta. Fato: o tempo de desenvolvimento do ovo até o Aedes adulto cai de dez para cinco dias nessas condições.
“Além disso, a fêmea pica mais”, continua o infectologista. Sim, e isso porque o metabolismo do mosquito é acelerado pela umidade e pelo calor de lascar. Daí que ele precisa se alimentar do nosso sangue mais vezes. Moral da história: se, por azar, estiver carregando um vírus, irá transmiti-lo para mais pessoas. Aliás, o próprio vírus se desenvolve mais depressa no mosquito em um climão desses.
Com outras arboviroses pode acontecer algo parecido. E, com mais uma possibilidade que o El Niño acende ao provocar secas no Norte e no Nordeste, que é a de queimadas, não dá para afastar o risco de doenças emergentes, com os mosquitos avançando para outras regiões, carregando consigo um agente infeccioso ainda desconhecido, com o qual nunca tivemos maior contato. “Nos congressos, a gente vê uma quantidade imensa de novos vírus, presentes nas florestas, que acabam sendo encontrados em estudos com mosquitos”, conta o infectologista.













