Medicamento mais vendido do Brasil no último ano, o Glifage XR, indicado principalmente para o controle do diabetes tipo 2, pode acabar reduzindo o peso de quem o utiliza. Especialistas alertam, entretanto, que usar o remédio apenas para esse fim pode ser perigoso e reforçam a importância da indicação médica. O remédio passou de 131.628.398 unidades vendidas (ou caixas) até maio de 2025 para 147.087.873 até maio de 2026, um crescimento de 11,7% em um ano. Os dados são da Close-Up International Brasil, agência de dados do Canal Farmacêutico, que reúne todas as farmácias e drogarias do país.
De acordo com Márcio Mancini, coordenador do Departamento de Farmacoterapia da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o emagrecimento por meio do remédio nem sempre acontece e, quando ocorre, pode vir acompanhado de efeitos colaterais desagradáveis.
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“Nem todo mundo emagrece com o medicamento. Porém, ele pode causar perda de peso em algumas pessoas, que têm o apetite reduzido. Em média, a perda é pequena, de um a três quilos em um período de seis a 12 meses. O remédio também pode causar efeitos colaterais, como náusea, diarréia e desconforto abdominal, que acabam levando à perda de peso”, explica.
Ele aponta que, além de não ser muito eficiente para a perda de peso isoladamente, o uso do remédio sem indicação médica pode provocar danos à saúde. “Pode haver insuficiência renal, deficiência de vitamina B12 e interferência com outros medicamentos – incluindo a hipoglicemia caso haja o uso de outros medicamentos para diabetes. Portanto, ela deve ser usada somente com indicação médica”, reforça.
Ele esclarece que, geralmente, o medicamento é indicado para pacientes com diabetes tipo 2 – uma vez que ele atua reduzindo a produção de glicose pelo fígado e melhorando o funcionamento da insulina no corpo. “Ele pode ser usado também para quem tem pré-diabetes, que é quando a glicose está alterada, mas ainda não é diabetes. O remédio pode prevenir que esse pré-diabetes se torne um diabetes tipo 2”, complementa.
Também existe um uso off-label, que não está na bula, para mulheres com síndrome policísticos. “Alguns médicos usam ainda para pacientes que ganham muito peso com remédios psiquiátricos e antipsicóticos. Mas, são casos específicos”, diz.
Remédio x canetas
O especialista também combate a ideia de que o Glifage XR poderia ser uma “alternativa mais barata” às canetas emagrecedoras na luta contra a balança. Além de atuarem de maneiras diferentes no corpo, o medicamento produz uma perda de peso bem menor em comparação às canetas.
“O Glifage XR diminui a resistência à insulina e diminui a produção de glicose pelo fígado. O paciente perde de um a três quilos em um período de até 12 meses. Já os análogos de GLP-1, que é a semaglutida e a liraglutida, e os análogos duplos de GLP-1 e GIP, que é a tirzepatida, eles têm múltiplas ações: retardam o esvaziamento gástrico e agem no cérebro – diminuindo o apetite. A liraglutida reduz por volta de 9% do peso, a semaglutida por volta de 16% e a tirzepatida por volta de 22%”, diferencia.
Quais remédios são mais indicados?
Já que o Glifage XR não é indicado especificamente para o emagrecimento, quais outros remédios poderiam ser receitados por médicos para esse fim? Segundo Mancini, além das canetas, um dos medicamentos que pode ajudar é a sibutramina, que age no hipotálamo inibindo a recaptação de serotonina e noradrenalina, causando a diminuição do apetite.
“Outra opção é o orlistate. Ele faz com que o indivíduo deixe de absorver 30% da gordura ingerida, levando a perda de peso. Também podemos citar a combinação de naltrexona e bupropiona, que diminui a fome e a compulsão alimentar. O uso desses medicamentos é contínuo porque obesidade é uma doença crônica. Os remédios servem para a perda e manutenção do peso perdido”, afirma.













