O uso de medicamentos emagrecedores, como as canetas injetáveis, tem ganhado cada vez mais popularidade entre pessoas que buscam perder peso de forma rápida. Apesar dos resultados acelerados, o cirurgião gastrointestinal e bariátrico Juliano Canavarros alerta para os riscos que a perda de peso abrupta pode trazer a pacientes.

Essa perda de peso acelerada pode levar ao desenvolvimento de cristais, que se juntam e formam as pedrinhas na vesícula
Segundo ele, o emagrecimento rápido, seja pelo uso de medicamentos ou pela realização de cirurgias, aumenta os riscos de pedra na vesícula. As doenças, quando não tratadas adequadamente, podem evoluir para quadros graves de pancreatite e levar à morte.
“Essa perda de peso acelerada pode levar ao desenvolvimento de cristais, que se juntam e formam as pedrinhas na vesícula. Quando a pedra é pequena, ela corre mais risco de sair da vesícula e causar essa patologia grave chamada pancreatite”, afirmou ele em entrevista ao MidiaNews.
De acordo com o cirurgião, o aumento da concentração de substâncias como fosfolipídios, sais biliares e colesterol na bile, aliado à baixa ingestão de água, contribui para a formação das pedras.
Para evitar o agravamento do quadro, ele citou a importância da ingestão adequada de líquidos, fundamentais para auxiliar na dissolução da bile.
Ainda na entrevista, o médico destacou a importância do acompanhamento profissional no uso de medicamentos para emagrecimento e alertou sobre os riscos da utilização de substâncias sem procedência ou orientação médica.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – O que é a pedra na vesícula e quais são os sintomas?
Juliano Canavarros – A pedra da vesícula é uma patologia. É quando alguma coisa não acontece de maneira devida na fisiologia da bile, que é uma substância produzida no seu fígado, em que leva a uma alteração na curva de solubilidade dela.
Você tem alguns solutos, como fosfolipídeos, como colesterol, como sais biliares. E que qualquer desses componentes, quando há um desequilíbrio em relação ao solvente universal, que é a água, pode levar a pessoa a desenvolver uns cristais que se juntam e formam a pedra da vesícula.
Victor Ostetti/MidiaNews

Com relação aos sintomas, pode ser nenhum. Pode ser um achado, a pessoa vai fazer uma ultrassomografia de controle e detecta. Se for uma pedra única, grande, que ela não tinha nem ciência, não tinha sintoma nenhum, pode ficar prorrogando a cirurgia. Agora, quando ela tem microcálculos, aí já é interessante fazer.
Quando a pessoa tem cálculos que são inferiores a 0,3 centímetros, eles podem sair da vesícula e cair num canal chamado colédogo, que vem do fígado e indo em direção ao seu intestino, que passa pela cabeça de um órgão chamado pâncreas e que pode levar a pessoa até a pancreatite.
Os sintomas podem ser desde uma intolerância, um mal estar na alimentação, até situações muito graves como a pancreatite necromorrágica, que pode causar até o falecimento do paciente.
MidiaNews – E como é realizado o diagnóstico ?
Juliano Canavarros – Vai muito pela clínica. Tem casos em que o paciente vai chegar lá e vai ser um achado, tem casos que ele vai ter uma dor, pode ter uma coisa que a gente chama colicistite aguda, que é uma inflamação dessa vesícula, a pedra tenta sair, não consegue e a vesícula se inflama e pode dar muita dor, pode dar febre, pode irradiar para a costa e pode chegar a situações que essa pedra migra e causa icteríceo. O que é isso? O paciente fica com aquele amarelão, fica urinando escuro, cor de coca-cola, fica evacuando fezes esbranquiçadas, parece aquela massa que o vidraceiro usa para colocar o vidro na casa.
MidiaNews – Em sua experiência, quais são os casos mais extremos que já presenciou?
Juliano Canavarros – Casos extremos que já vi desde um bilioma, que o paciente faz [cirurgia] e por um motivo ou outro a clipagem do cístico não ficou satisfatória e aquilo pode ter ficado frouxinho, vazar uma bile, ou essa bile pode vir de um canalículo que sai diretamente do fígado, que não é percebida na cirurgia e junta uma bolha de bile dentro da barriga, é chamado bilioma.

Os sintomas podem ser desde uma intolerância, até situações muito graves como a pancreatite
Já vi casos de pancreatite. Tinha uma paciente uma vez, eu contava até para um amigo, sangrava muito pelo abdômen, porque ela já tinha sido operada várias vezes por conta da pancreatite, estava com um abdômen que a gente chama de peritoneostomia (abdômen aberto), porque toda hora tem que lavar.
Porque o pâncreas quando inflama, solta umas enzimas. Uma delas é a elastase, vai nos vasos sanguíneos e corrói, porque essas enzimas são usadas para a digestão de carne e como elas estão extravazando, não estão indo para onde deveriam. E ela literalmente está comendo a pessoa viva, e a menina sangrava muito pelo abdômen, mas não havia mais possibilidade terapeutica, então é uma coisa muito marcante.
Não desejo para ninguém passar por isso, mas a gente como médico é obrigado a se deparar com situações extremas. Pancreatite e necromorrágica eu já vi muitas, e o paciente tem grande chance de falecer.
MidiaNews – Hábitos alimentares e práticas de exercícios também podem contribuir para a prevenção da pedra na vesícula?
Juliano Canavarros – Hábito alimentar, sim. A questão da atividade física não tem nenhuma evidência mostrando que é benéfico com relação a alterar a solubilidade da bile. Se você tem um hábito saudável, evitar gorduras, frituras, é bem provável que você não tenha. Mas, às vezes, está no seu DNA.
Sua mãe já teve cálculo na vesícula, sua avó já teve cálculo na vesícula, e você já é uma mulher que teve filho, por exemplo, aumenta muito a chance de desenvolver pedra na vesícula.
MidiaNews – Então, pode também estar ligado a genética?
Juliano Canavarros – Sem dúvida nenhuma.
Victor Ostetti/MidiaNews

MidiaNews – E o senhor tem percebido que há um crescimento no diagnóstico de pedra na vesícula?
Juliano Canavarros – Aumentou bastante, até por conta de pessoas que por um motivo ou outro levam a perder peso de maneira mais acelerada.
E agora com a divulgação dessas medicações, que tem gente usando sem indicação médica, e estão fazendo por uma questão estética, por perder peso. E essa perda de peso acelerada pode levar a desenvolver esses cristais que te falei, que se juntam e formam as pedrinhas na vesícula. Quando a pedra é pequena, ela corre mais risco de sair da vesícula e causar essa doença, essa patologia grave chamada pancreatite.
MidiaNews – E as canetas emagrecedoras podem contribuir para o diagnóstico de pedra na vesícula?
Juliano Canavarros – Eu não tenho nenhum trabalho de nível de evidência alto em grau de recomendação satisfatório mostrando que ela é causadora de pedra na vesícula. Mas a gente sabe que aumenta a chance de desenvolver por conta do emagrecimento mais acentuado, vamos falar assim.
MidiaNews – Pode explicar porque o emagrecimento rápido esta ligado a casos de pedra na vesícula?
Juliano Canavarros – Você tem substâncias que são soluto e tem um solvente universal que é a água. Então, se você oferta mais fosfolipídio, se você oferta mais sal biliar, se oferta mais colesterol na bile, forma os cristais que se juntam para formar a pedra. Por isso, a gente recomenda, se você está emagrecendo de maneira rápida, está perdendo peso por motivo A, B, ou seja de cirurgia, ou uso da caneta emagrecedora, deve ingerir muita água. Porque lembra, a água é o solvente da bile.
MidiaNews – Quais são os riscos do uso de medicamento sem indicação médica?

Hoje, a gente sabe de medicações que são de procedência duvidosa
Juliano Canavarros – Isso é um perigo. A gente recomenda que não se faça. Hoje, a gente sabe de medicações que são de procedência duvidosa. Você não sabe como essa caixa do medicamento foi condicionada.
Às vezes, para a pessoa não ser pega, ela esconde de qualquer maneira dentro do automóvel dela, para passar em uma barreira. Medicação tem um nível de estabilização. Existe fármaco cinética, quando ela é introduzida no seu corpo, demanda da qualidade dessa substância. Se você está introduzindo uma medicação que ficou no sol, que foi mal acondicionada, não sabe de onde veio, como foi feita, o que é pior ainda. Você deve procurar sempre uma orientação do médico, saber a procedência dessa medicação.
MidiaNews – O senhor tem visto muitos casos de uso de medicação não indicado por profissionais e que tenha levado a consequências extremas?
Juliano Canavarros – Muito, mas a gente só pode aconselhar o paciente. O médico não pode chegar e falar: ‘Você está usando coisas que não deve, então vou te denunciar’. Isso é um erro ético muito grande.
Mas a gente tem a obrigação de alertar, que pode levar a uma situação indesejada, que pode agravar a vida.
MidiaNews- Quem toma medicação com acompanhamento também podem apresentar efeitos colaterais?
Juliano Canavarros – Sim, sempre. Eu fui convidado para presidir uma mesa em Cartagena, na Colômbia, e lá tinha um cirurgião norte-americano que apresentou uns dados muito atuais sobre o uso de caneta nos Estados Unidos. O doutor João Morton, que é da Yale University, colocou de maneira muito clara que 5 a 10% dos pacientes vão ter algum tipo de efeito colateral com o uso da medicação que você sabe a procedência.
5 a 10% dos pacientes não vão ter efeito benéfico nenhum. É como se estivesse tomando água, vamos falar assim. Porque essas medicações são, na verdade, uma tentativa de fazer o que a cirurgia já fazia no corpo, que é você elevar níveis de hormônios, só que aí você introduz um análogo de hormônios.

Porque essas medicações são, na verdade, uma tentativa de fazer o que a cirurgia já fazia no corpo
MidiaNews – O fácil acesso as canetas e aos medicamentos emagrecedores tem diminuído a procura por cirurgia?
Juliano Canavarros – Sem dúvida, mas a gente não vê isso como empecilho, porque a gente sabe que estamos lidando com uma doença de causa multifatorial que atinge 30% da população, então é meramente impossível o cirurgião com cirurgia resolver esse problema.
Falando de maneira muito honesta aqui para a população, o cirurgião só conseguia operar 1% dos casos de indicação elegíveis para a cirurgia. Então, quando a medicação entrou, para mim foi muito benéfico, porque despertou em muita gente que tinha obesidade e não se achava doente, e a gente sabe que a obesidade é uma doença, então despertou a curiosidade do paciente pelo menos estudar a situação dele, analisar a situação dele e ver que ele era portador de uma doença.
Por outro lado, quando a gente precisa atingir uma doença que seja de causa multifatorial, doença crônica, de difícil controle, a gente precisa de um total arsenal. Então a gente precisa de cirurgia, a gente precisa de medicamento, a gente precisa que o paciente abrace o tratamento, ele precisa mudar o hábito de vida dele, precisa ter uma atividade física, se alimentar melhor, não exagerar na bebida alcoólica.
MidiaNews – O senhor poderia falar um pouco do ‘Metabólica Pantanal’?
Juliano Canavarros – Estamos partindo para o terceiro ‘Metabólica Pantanal’, é uma oportunidade de você, cirurgião que está no interior do estado, de vir até a capital, somar aqui com a gente, pode vir, se inscrever.
É um evento que você tem a oportunidade de reunir os maiores nomes da cirurgia nacional, são gente que vem de grandes hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, enfim. É uma quantidade de colegas que você vai poder fazer um network com ele, trocar experiência, perguntar as dúvidas que você tem, para que ele possa te orientar o melhor caminho, né, para você ter com os seus pacientes portadores dessa doença e obesidade.
E não só você, cirurgião, você também da equipe multidisciplinar, nutricionista, psicóloga, psiquiatra, epidemiologista, cardiologista, que quiser vir, serão muito bem acolhidos.
Assista a entrevista completa:












