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- Author, Redação
- Role, BBC News
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O acordo é descrito como um “acordo de cooperação nuclear pacífica” que garantirá “amplo acesso para empresas americanas ao programa de energia nuclear saudita”, segundo o Departamento de Energia dos EUA.
Os termos não foram divulgados publicamente, mas a imprensa americana informou que ele pode permitir que a Arábia Saudita enriqueça urânio no futuro — uma tecnologia que pode ser usada para produzir combustível para usinas nucleares, mas que também pode servir para fabricar bombas atômicas.
Especialistas afirmam que isso seria algo inédito para os Estados Unidos e poderia aumentar o risco de proliferação nuclear em uma região que já enfrenta grande instabilidade.
Segundo o Departamento de Energia dos EUA, o acordo segue “os mais altos padrões de segurança nuclear e não proliferação” de armas nucleares. Além do acordo de cooperação, também foi firmado um “acordo bilateral de salvaguardas”.
“Juntos, esses dois acordos estabelecem a base jurídica para uma parceria de várias décadas e de vários bilhões de dólares, que avança diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários”, diz o comunicado.
O governo saudita divulgou uma nota afirmando que o acordo “representa uma extensão da cooperação já existente entre os dois países no setor de energia” e destacou que ele acontece após a visita do líder saudita a Washington em novembro passado.
O anúncio ocorre em meio à escalada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã. A Arábia Saudita, aliada de longa data dos EUA, abriga diversas bases militares americanas, que foram alvo de ataques iranianos.
Em 2023, segundo dados da Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA), 62% da energia produzida na Arábia Saudita foram provenientes de gás natural, 38% de petróleo e menos de 1% de fontes renováveis.
Segundo especialistas em energia, mesmo com o acordo, provavelmente levará pelo menos uma década para que a Arábia Saudita coloque em operação usinas nucleares para geração de energia civil.
O receio das armas nucleares
A assinatura do acordo, porém, já gera preocupação no Oriente Médio.
O ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Liberman, pediu ao governo israelense para “agir com determinação” para impedir o acordo.
“O programa nuclear civil da Arábia Saudita acabará resultando em armas nucleares”, escreveu Liberman no X, acrescentando que isso levaria a uma “corrida armamentista insana em todo o Oriente Médio”.
A questão nuclear esteve no centro do conflito de meses entre Estados Unidos, Israel e Irã. Os dois países afirmam que uma das razões para os ataques contra o Irã em fevereiro foi impedir que o país desenvolvesse uma arma nuclear — algo que Teerã nega estar planejando.
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, chegou a afirmar no passado que buscaria desenvolver armas nucleares caso o Irã, rival histórico dos sauditas, fizesse o mesmo.

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O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, rebateu as críticas de quem teme que a Arábia Saudita possa desenvolver uma arma nuclear no futuro.
“Os Estados Unidos não vão firmar nenhum acordo com nenhum país do mundo que leve ao risco de proliferação”, disse Rubio a jornalistas durante uma viagem às Filipinas.
Vários democratas que se opuseram ao acordo lembraram que, quando era senador, Rubio havia apoiado uma lei — a “No Nuclear Weapons for Saudi Arabia Act” (“Lei Sem Armas Nucleares para a Arábia Saudita”, em tradução livre) — que exigia a aprovação do Congresso para qualquer acordo nuclear com os sauditas.
O senador democrata Edward Markey, de Massachusetts, divulgou uma nota criticando Rubio e Trump, afirmando que a “hipocrisia deles só é superada pela imprudência”.
“Eles estão permitindo que a Arábia Saudita, uma nação beligerante e autoritária, desenvolva tecnologias nucleares enquanto iniciam uma guerra com o Irã sob o pretexto de impedir uma bomba nuclear iraniana”, disse Markey.
Caso o acordo inclua uma cláusula permitindo o enriquecimento de urânio, ele será diferente de outro tratado firmado pelos Estados Unidos em 2009 com o país vizinho da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos. Nesse acordo, os Emirados não produzem seu próprio combustível nuclear e aceitaram uma série de outras restrições.
Por esse motivo, o pacto também deve despertar preocupação entre grupos que defendem a não proliferação nuclear, cujo principal objetivo é impedir o aumento do número de armas nucleares no mundo.
Temor é justificado?
Segundo análise de Frank Gardner, correspondente de segurança da BBC, o acordo de agora não significa que os sauditas buscarão uma bomba nuclear, pelo menos nas condições atuais.
“Mas esse é o receio que inevitavelmente cerca este acordo. O Irã enriqueceu seu próprio urânio e veja o que aconteceu por lá”, disse.
Nas profundezas de suas montanhas desérticas, longe da observação dos satélites americanos, o Irã prosseguiu com o enriquecimento de 441 kg de urânio a 60% de pureza, muito acima dos 3,67% necessários para a geração de energia nuclear para fins civis e a apenas um curto passo do urânio altamente enriquecido em grau militar, necessário para construir uma bomba.
Acredita-se que esse urânio ainda esteja nos túneis que foram bombardeados no ano passado pelos Estados Unidos.
“Não há nada que sugira que a Arábia Saudita tenha a intenção de fazer o mesmo que o Irã ou de desviar seu incipiente programa nuclear civil para fins militares”, destacar Gardner.
“Mas os sauditas vivem em uma vizinhança perigosa e, se o Irã viesse a adquirir uma arma nuclear, eles certamente desejariam ter uma própria como forma de dissuasão.”
Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio do think tank americano Defense Priorities, afirma que o desenvolvimento de uma arma nuclear por meio desse acordo provavelmente levaria décadas e provocaria uma reação contrária da comunidade internacional.
Segundo ela, seria “bastante surpreendente” se o acordo incluísse a autorização dos EUA para que a Arábia Saudita tivesse instalações próprias de enriquecimento de urânio.
“Os Estados Unidos nunca fizeram isso antes; nunca ajudamos outro país a realizar enriquecimento em seu próprio território”, afirmou. Segundo ela, a razão para isso é que “se você consegue produzir seu próprio combustível nuclear, torna-se um risco muito maior” no desenvolvimento de armas nucleares.
O acordo agora será enviado ao Congresso para análise.
Espera-se que alguns parlamentares dos dois partidos se oponham ao acordo, embora o Partido Republicano de Trump atualmente controle tanto a Câmara dos Representantes quanto o Senado.
A aproximação EUA-Arábia Saudita
A Arábia Saudita busca um acordo desse tipo há anos, durante diferentes governos americanos, mas Washington vinha condicionando o avanço das negociações a uma exigência importante: que o país reconhecesse Israel, um aliado-chave dos EUA, e normalizasse suas relações diplomáticas e econômicas com o país.
Segundo relatos da imprensa americana, porém, essa exigência parece ter sido retirada como condição para o acordo.
A razão pela qual os EUA finalizaram o acordo é dupla. Há um interesse comercial, porque empresas americanas vão ganhar dinheiro com isso.
Mas, em parte, trata-se de manter a Arábia Saudita dentro da sua esfera estratégica de interesse, analisa Gardner.
Segundo relatos, Rússia e China estariam discutindo iniciativas semelhantes, e os Estados Unidos poderiam não querer ficar de fora.
Se Washington recusasse um pedido saudita de ajuda para o seu programa nuclear civil, então os sauditas poderiam recorrer aos chineses para os ajudar.

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O acordo mostra também um alinhamento cada vez mais próximo entre os dois países.
Desde o seu regresso à Casa Branca, o presidente Donald Trump tem trabalhado para cultivar uma relação mais próxima. Uma das suas primeiras grandes viagens ao exterior foi à Arábia Saudita, em maio de 2025, quando empresas sauditas se comprometeram, segundo relatos, a investir 600 mil milhões de dólares nos EUA.
Em novembro, Trump recebeu calorosamente o príncipe Mohammad bin Salman na Casa Branca.
Ele foi recebido com uma saudação pessoal sobre um tapete vermelho, um desfile aéreo militar e uma visita à residência presidencial. O presidente também fala de forma muito elogiosa dos líderes sauditas, afirmando frequentemente que o rei Salman bin Abdulaziz lhe disse que os EUA eram “um país morto” sob a gestão anterior, de Joe Biden.
Conversas desde 2008
As negociações para a cooperação entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita num programa nuclear civil remontam a 2008.
Durante o governo George W. Bush, os dois países assinaram um memorando de entendimento não vinculativo, no qual os EUA afirmaram que ajudariam o reino do Golfo a desenvolver energia nuclear para fins civis, mas a Arábia Saudita declarou que pretendia importar combustível nuclear e não procuraria “tecnologias nucleares sensíveis”.
De 2017 a 2019, os EUA concederam a sete empresas americanas autorização para participar em “discussões nucleares civis” com a Arábia Saudita.
Contudo, em 2020, o Congresso informou que os dois países “não tinham feito progressos significativos” devido a “divergências persistentes” sobre condições que incluíam restrições ao enriquecimento.
Em 2022, os EUA e a Arábia Saudita assinaram um novo memorando de entendimento sobre “troca de informação técnica e cooperação em matérias de segurança nuclear”.
Em 2023, o Wall Street Journal informou que os EUA estavam considerandio uma operação de enriquecimento de urânio administrada pelo país dentro da Arábia Saudita.
Por fim, em novembro de 2025, os EUA e a Arábia Saudita assinaram uma declaração conjunta que, segundo a administração Trump, “estabelece a base jurídica para uma parceria em energia nuclear de várias décadas e de vários milhares de milhões de dólares”.













