A cada quatro anos, o futebol une nações e bilhões de torcedores para acompanhar a disputa da Copa do Mundo, a competição que promove uma verdadeira integração global dentro e fora das quatro linhas por meio da bola. No entanto, existe uma relação entre dois países em que o esporte popular representa mais que uma modalidade, representa uma forte conexão formada pela paixão, solidariedade e já exerceu até função social: Brasil e Haiti.
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Nas últimas décadas, os dois territórios construíram uma ligação praticamente umbilical nutrida por uma onda de solidariedade, acolhimento e ajuda humanitária, mas é o amor pelo futebol que representa uma parcela significativa da admiração do povo caribenho pelo Brasil. Tal vínculo, inclusive, faz parte da vivência de quem mora entre os dois países, como é o caso do amazonense José Aurélio.
Na segunda reportagem da série especial ‘Amazônia na Copa’, com histórias de brasileiros nascidos na Amazônia Legal que moram nos países adversários do Brasil no Mundial deste ano, o manauara de 41 anos que vive no Haiti relata como o futebol e a cultura brasileira influenciam a rotina de quem vive no país da América Central e detalha a relação de respeito e apreço do povo haitiano pela seleção verde e amarela pentacampeã do mundo.
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Torcedor? Só durante a Copa
Apesar de ser o esporte mais popular do mundo, o futebol não está entre as preferências de José Aurélio. Morando há cinco anos em Porto Príncipe, capital do Haiti, o amazonense conta que sua rotina se resume a ir para o trabalho e voltar para casa na capital haitiana, local que escolheu viver após aceitar uma oportunidade para atuar como técnico operacional em máquinas de fabricação de termoplásticos.
Mas quando se trata de Copa de Mundo, o brasileiro admite que muda sua rotina e troca a farda pela camisa da Seleção para torcer a favor do time canarinho no maior torneio do futebol.
“Em relação ao futebol, para ser sincero, confesso que não sou muito fã. Minha família toda torce para o Vasco, se for para sofrer vendo o time carioca jogar, é melhor eu esperar a Copa a cada quatro anos e torcer pelo Brasil (risos). Época de Mundial é o período que eu mais gosto de assistir futebol e de torcer pela nossa seleção”, explica Aurélio.
Preferências à parte, o manauara relembra que o futebol foi o responsável por um dos momentos mais marcantes da sua vida já vivendo em Porto Príncipe, quando sentiu de perto a idolatria dos haitianos pelo povo brasileiro.
“A Copa de 2022 foi a primeira que eu pude acompanhar fora do Brasil e dentro de um país que ama o nosso futebol. Eles idolatram a nossa seleção, a nossa cultura, eu me senti em casa, então, foi marcante e satisfatório ver que uma outra nação gosta tanto do Brasil e do nosso futebol”, recorda.
Paixão haitiana pelo futebol


O amor do povo de Haiti pelo futebol, em especial o brasileiro, tem explicação. Em 18 de agosto de 2004, uma partida amistosa entre Brasil e a seleção local realizada em Porto Príncipe marcou a história do país caribenho, que vivia naquela época uma guerra civil instalada por crises políticas e um cenário de violência urbana extrema.
Conhecido como o Jogo da Paz, o duelo contou com craques brasileiros como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos e foi capaz de paralisar os conflitos armados durante noventa minutos na cidade haitiana.
Na ocasião, a seleção canarinha venceu por 6 a 0, mas o cenário de paz, alegria e esperança que pairou naquele dia histórico foi a vitória mais importante comemorada por milhares de haitianos que puderam assistir de perto a única seleção pentacampeã do mundo. Daí a relação de respeito e admiração do povo caribenho em relação ao Brasil.
“No Haiti, a relação entre brasileiros e haitianos é de muito respeito, não temos problemas com eles e eles não têm problemas com a gente. É perceptível ver o carinho especial que eles sentem pela gente, digo que mais de 80% da população haitiana torce para o Brasil, isso mostra o quanto essa nação tem apreço pela nossa”, reforça José.
Classificação para Copa
E como se não bastassem os bons frutos da relação entre Haiti e o futebol, quis o destino que o esporte reservasse mais uma capítulo histórico: a classificação do país para disputar a Copa do Mundo de 2026.
A conquista da vaga, algo que não acontecia desde 1974, ainda teria um ingrediente especial: a seleção caribenha está no mesmo grupo que o Brasil na competição mundial, o que garante o duelo entre os países na maior evento de futebol do planeta.
José conta que a classificação do Haiti para o Mundial foi bastante comemorada pelo povo caribenho com muita festa e celebrações que pararam o país.
“Eu lembro que no dia que o Haiti garantiu a participação na Copa, eu não estava bem de saúde e fui na farmácia comprar um remédio. Quando eu entrei no carro, só vi aquela multidão na avenida principal de Porto Príncipe. Nessa noite, todos os haitianos saíram de casa para comemorar na rua, eu tive que esperar uns cinquenta minutos, deram até ponto facultativo no outro dia porque ninguém foi trabalhar. Então, foi outro momento que me marcou bastante no Haiti com relação à Copa”, relata.
Expectativas para o duelo
Nesta sexta-feira, 19 de junho, Brasil e Haiti entram em campo em partida válida pela segunda rodada do grupo C do Mundial. Aurélio frisa que vai torcer pelo seu país de origem, mas que ficará dividido durante o confronto. O manauara, que assistirá o duelo junto com a família em Manaus, aproveitou para cravar o seu palpite:
“Vou torcer pelo Brasil porque sou brasileiro, é claro, mas meu coração vai ficar bem dividido porque o Haiti foi um país bem acolhedor da mesma forma que nós fomos e somos com eles. Mas a minha torcida será pela seleção brasileira e acredito na vitória por 3 a 1 pra cima do Haiti”.
Matando a saudade da família
Há dois meses, José Aurélio desembarcou em Manaus para aproveitar as férias e rever a família. Ele revela que tem aproveitado o seu retorno para matar a saudade da terrinha, principalmente da culinária e dos pontos turísticos da capital amazonense.

“A nossa região é vasta e única né, eu sentia muita falta do tambaqui, do nosso açaí, a culinária amazonense, a cultura, tudo isso é muito rico. A minha vida é muito ligada à família, de ir à igreja aos domingos, caminhar na Ponta Negra, visitar pontos turísticos, aproveitar os feriados prolongados, andar de bicicleta e, claro, estar perto das pessoas que a gente ama”, frisa o amazonense, que aproveitou para revelar os próximos planos:
“Até então, eu não tenho nenhum plano para retornar para o Haiti. Primeiro porque eu já estou até trabalhando aqui em Manaus e segundo porque estou analisando uma proposta que surgiu do Paraguai. Então, no momento, não penso em voltar para lá”, finalizou.













