Em novembro de 2010 eclodiu o escândalo de fraudes contábeis no Banco Panamericano, controlado por Silvio Santos, do SBT. Agora, 16 anos depois, outra instituição detida por um dono de emissora de TV também se vê envolta em possíveis irregularidades: o Digimais, de Edir Macedo, da TV Record e Igreja Universal do Reino de Deus.
Na época do escândalo do Panamericano, foi preciso um empréstimo bilionário do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e o uso da Caixa, que socorreu o banco de Silvio Santos. No entanto, pouco tempo depois, quem entrou no capital do Pan (que foi rebatizado assim) foi o BTG Pactual.
Agora, o mesmo BTG pode ser a tábua de salvação do Digimais. Mas, de novo, a equação depende da entrada em ação do FGC. O banco de André Esteves anunciou em abril um acordo preliminar para a compra da instituição do bispo Edir Macedo, mas desde então já dizia que a operação dependia de uma série de condições precedentes, incluindo a diligência sobre o balanço da instituição e o empréstimo FGC.
Como o Valor mostrou, o FGC já vinha exigindo uma série de documentações do Digimais e do BTG para avançar com as negociações, mas ainda não é possível dizer se e quando o eventual empréstimo será liberado. Com essas dificuldades, o interesse do banco de Esteves já tinha esmorecido um pouco, afirmaram fontes próximas. “O BTG esperava um apoio e uma aprovação mais rápida do BC”, comentou um interlocutor.
A operação da PF contra o Digimais nesta terça-feira não significa que o acordo com o BTG esteja completamente enterrado, mas certamente é um fator complicador na operação. O BTG se tornou, na última década, o grande comprador de bancos brasileiros quebrados, em busca de extrair algum valor dos “créditos podres” e ativos fiscais que essas instituições financeiras deixaram pelo caminho.
O garimpo do BTG nos bancos quebrados começou em 2013, quando anunciou a compra do Bamerindus, pagando ao FGC cerca de R$ 418 milhões. Quatro anos depois, a Enforce, empresa de recuperação de créditos do BTG, arrematou por R$ 211 milhões os créditos podres do banco BVA. Entre 2021 e 2022, pagou R$ 937,7 milhões por uma carteira de créditos inadimplidos do Banco Econômico que estavam com o BNDES e o FGC. Depois, acabou levando a instituição como um todo. Em 2024, adquiriu o Nacional.
A equação do Digimais é complexa por vários sentidos. Em tese, o balanço do banco é saudável, com lucro de R$ 31,281 milhões em 2025 e um índice de Basileia projetado de 13,49% – considerando o aumentO de capital de R$ 250 milhões feito por Macedo em dezembro do ano passado e homologado pelo BC em março deste ano.
Entretanto, o lucro do Digimais só foi possível graças a um efeito de R$ 126 milhões com a venda de R$ 741,436 milhões em cotas do fundo Hermon a sua controladora indireta , a BA Empreendimentos. A CLA Brasil, que faz a auditoria do balanço, emitiu um parecer com ressalva sobre essa transação.
“Embora, suportada por pareceres legais atestando sua lisura e conformidade regulatória, com base na análise do contrato celebrado entre as partes, identificamos que a operação pode não refletir condições usuais de mercado, uma vez que não prevê remuneração compatível com sua natureza econômica e que sua realização está condicionada ao recebimento por parte da adquirente ou por meio de aporte dos controladores finais. Até a data de emissão deste relatório, não obtivemos evidências de auditoria apropriadas e suficientes que nos permitissem concluir sobre a adequada classificação, da mensuração do ativo reconhecido e a razoabilidade dos efeitos contábeis decorrentes dessa transação”, diz a CLA.
A posição de Macedo também é um fator a ser considerado. Além de dono da Record e da Igreja Universal, ele tem forte influência no partido Republicanos. Ou seja, uma eventual intervenção no seu banco, em ano eleitoral, pode ter implicações políticas.
A compra do Digimais pelo BTG poderia ser vista como um gesto de boa vontade de Esteves tanto com Macedo como com o presidente Lula, já que uma “solução de mercado” evitaria mais um um rombo bilionário para o FGC e mais um desgate para o Banco Central, já engolfado pelas polêmicas do Master. Mas, no Brasil, é sempre preciso esperar pelo imponderável da PF batendo na porta de alguém às 6h da manhã, como aconteceu com o Digimais hoje.
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