Perda de peso inexplicável. Uma dor nas costas que não passa. Um diabetes que surgiu do nada depois dos 50 anos. Sozinhos, esses sinais raramente levantam suspeita. Mas se aparecem juntos, ou se são persistentes, podem ser o primeiro aviso de um dos cânceres mais difíceis de diagnosticar: o de pâncreas.
Por ser agressivo e de evolução rápida, o diagnóstico costuma acontecer em estágios já avançados: estudos recentes apontam que menos de 20% dos pacientes com câncer de pâncreas são diagnosticados em estágio inicial. Entender por que isso acontece é o primeiro passo para mudar esse cenário.
O que está por trás da dificuldade no diagnóstico
A localização do pâncreas explica boa parte do problema. “O pâncreas se situa numa região do retroperitônio (região abdominal profunda, atrás dos órgãos digestivos), atrás de vísceras como intestino e estômago. Por estar nessa posição, dificilmente ele é visto em exames de imagem convencionais como ultrassom, por exemplo. Muitas vezes o médico não consegue palpar o pâncreas, a lesão no pâncreas”, explica Pedro Uson, oncologista especialista em aparelho digestivo do Einstein Hospital Israelita.
A consequência direta é a ausência de um rastreamento eficaz. Cristóvam Scapulatempo Neto, diretor médico de patologia e genética do Delboni, da Dasa, reforça: “Ao contrário do câncer de mama (mamografia) ou de próstata (PSA), ainda não existe um exame de rastreamento eficaz e seguro para aplicar em toda a população que não apresenta sintomas”.
Mas a localização desfavorável não é o único fator. O comportamento biológico do tumor também contribui. Segundo Uson, o tumor tem um comportamento mais agressivo: ele dá metástase (disseminação do tumor para outros órgãos) com lesões pequenas, de um, dois centímetros, antes de acontecer algum sintoma ou sinal. Em outras palavras, quando o paciente finalmente sente algo, a doença pode já ter se espalhado.
Veja também: Câncer de pâncreas: por que ele é agressivo?
Sintomas que passam despercebidos
Muitos dos primeiros sinais do câncer de pâncreas são vagos e se parecem muito com problemas digestivos comuns, o que atrasa ainda mais a busca por avaliação especializada.
“O paciente pode ter perda de peso inexplicada, desconforto abdominal, problemas digestivos inespecíficos, dispepsia, empachamento, alteração do hábito abdominal com diarreia. Ele acha que esses sintomas são associados a outras condições”, afirma Uson.
Neto descreve um dos sinais mais característicos: “Uma dor chata na boca do estômago que parece ‘abraçar’ as costas. Muitas vezes, ela piora ao deitar e melhora quando a pessoa curva o corpo para a frente. É comum confundi-la com gastrite ou problema de postura.”
A icterícia (amarelamento da pele e dos olhos) é outro sinal que frequentemente chega tarde e muitas vezes é confundida também com hepatites virais. Segundo o oncologista, quando aparece, em geral indica que o tumor já obstruiu o ducto biliar, o que já configura um estádio avançado.
O elo com o diabetes: um alerta após os 50 anos
Uma das associações menos conhecidas pelo público é o surgimento súbito de diabetes em pessoas acima de 50 anos sem histórico da doença, o chamado “new onset diabetes” (diabetes de início recente, em tradução livre).
Um estudo prospectivo publicado em 2025 no periódico Gastroenterology acompanhou quase 19 mil adultos acima de 50 anos com diabetes de início recente e confirmou a associação com risco elevado de câncer de pâncreas nos três anos seguintes ao diagnóstico.
“É aquele diabetes que acontece no paciente acima de 50 anos, que não tem histórico de diabetes. Então, pacientes que nunca tiveram diabetes desenvolvem um diabetes com altos níveis glicêmicos, um diabetes de difícil controle”, explica Uson.
O outro perfil de alerta é o paciente que já tinha diabetes tipo 2 controlado e, de repente, não consegue mais controlar a doença, sem motivo aparente.
O oncologista aponta ainda uma diferença importante em relação ao diabetes convencional: “O diabetes do tipo 2 convencional geralmente vem com sedentarismo, obesidade, ganho de peso, hipertensão arterial, aquela síndrome metabólica. O diabetes associado ao câncer de pâncreas pode acontecer com perda de peso. É um paciente que está magro ou perdendo peso com diabetes tipo 2. Isso mostra que é diferente: a perda de peso está associada ao tumor.”
Veja também: Fatores hereditários podem estar relacionados ao câncer de pâncreas
Quando procurar um médico
Os especialistas são enfáticos: sintomas persistentes não devem ser normalizados.
“Essas condições clínicas não são normais. Se você tem uma vez, pode ser apenas uma gastroenterite viral. Mas isso de modo recorrente, com perda de peso, tem que ser investigado com um especialista”, orienta Uson.
Neto lista os sinais que devem motivar uma consulta rapidamente:
- icterícia;
- urina muito escura e fezes claras ou esbranquiçadas;
- náuseas, vômitos e dores abdominais que duram semanas sem melhora com medicamentos comuns;
- e perda de peso sem dieta ou exercício.
“No começo, a pessoa pode até achar positivo, mas é um grande sinal de alerta”, observa o patologista sobre a perda de peso inexplicada.
Quem tem fatores de risco, como tabagismo, obesidade, histórico familiar de câncer de pâncreas ou diagnóstico de pancreatite crônica, deve redobrar a atenção. “Na dúvida, sempre investigue com o seu médico de confiança. É melhor prevenir”, conclui Neto.
Novo medicamento traz esperança
Recentemente, a apresentação de resultados de um novo medicamento emocionou milhares de médicos durante o Congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO). O daraxonrasib, uma medicação ainda em fase experimental, reduziu em 60% o risco de morte em pacientes com a mutação genética KRAS G12, relacionada a mais de 90% dos casos desse tipo de câncer.
A droga proporcionou uma sobrevida duas vezes maior quando comparada à quimioterapia convencional: a sobrevida mediana global (tempo decorrido a partir do diagnóstico no qual metade dos pacientes com uma condição específica ainda está viva) aumentou para 13,2 meses, comparado a apenas 6,7 meses com a quimioterapia convencional.
Veja também: Por que os casos de câncer estão aumentando?













