Quase com amor, o cientista Luciano Moreira segura uma caixa de vidro onde se amontoam mosquitos antidengue. O recipiente abriga amostras de uma aposta que tem se mostrado eficaz contra a doença, mas que esbarra em limites para se expandir no Brasil.
Para que ninguém descubra segredos do método, os assessores de Moreira pedem que não sejam fotografados equipamentos da biofábrica em Curitiba, o maior criadouro de “wolbitos” no mundo.
É assim que o entomologista de 59 anos chama os Aedes aegypti inoculados com Wolbachia, uma bactéria que os impede de desenvolver dengue.
“Estamos em um momento decisivo para conseguir nos expandir no Brasil”, diz à AFP Moreira, citado pela Nature entre os dez cientistas que marcaram 2025 e pela Times em uma lista de mais influentes neste ano.
O método consiste em liberar “wolbitos” em zonas urbanas, onde em questão de meses eles substituem por transmissão geracional os mosquitos que transmitem dengue.
Embora a técnica funcione em 15 países, em nenhum protegeu tantas pessoas como no Brasil desde que Moreira começou a testá-la em 2011: um total de 6 milhões, estima-se.
Mas ainda restam mais de 200 milhões de cidadãos no país, o mais atingido pela dengue em 2024, com mais de 6.000 mortes, embora no ano passado a incidência tenha sido muito menor.
Milhões de ovos
A biofábrica foi inaugurada em 2025 com apoio do instituto público Fiocruz e da ONG internacional World Mosquito Program (WMP).
Na sala de reprodução, alguns dos 70 funcionários enxugam o suor.
O aquecimento está regulado ao gosto dos mosquitos, confinados em grandes áreas de tela translúcida.
A sala cheira ao alimento deles: sangue quente de cavalo e água com açúcar.
As fêmeas podem produzir cem milhões de ovos por semana infectados com Wolbachia, que é transmitida às crias.
Embalados em cápsulas, os ovos são enviados a centros municipais, onde são chocados e liberados.
Em duas cidades com estudos científicos sobre o método, Niterói (RJ) e Campo Grande (MS), os resultados foram de queda de 89% e 63% nos casos de dengue, respectivamente.
Mas a cura não avança mais rápido que a doença.
A mudança climática aumenta a disseminação do vírus. No sul do país, que era muito mais frio, antes não havia dengue e agora há, alerta Moreira, fundador da biofábrica e hoje assessor do WMP.
Além disso, embora o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha reconhecido o método Wolbachia como uma medida de saúde pública, os tempos do Estado não acompanham a procriação de mosquitos.
Os ovos produzidos em Curitiba são distribuídos para outras cidades seguindo ordens das autoridades sanitárias. Mas a fábrica teve que reduzir a produção porque a demanda (do Ministério da Saúde) não estava tão alta, diz Moreira.
A bióloga e epidemiologista Ludimila Raupp, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio, afirma que há urgência em expandir o método Wolbachia para combater a dengue no Brasil.
Ampliar a cobertura nacional, porém, não é fácil e ela cita o caso do Rio de Janeiro, onde a implementação teve graves falhas e uma descoordenação institucional.
A cidade, segundo ela, registrou resultados modestos porque as equipes sanitárias fizeram uso intensivo de larvicidas prejudiciais aos “wolbitos”.
A violência do crime organizado também complicou a implementação nas favelas cariocas, de acordo com Moreira.
Desafios
A expansão do método enfrenta desafios técnicos, operacionais, logísticos e financeiros, afirma à AFP o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
No entanto, o ministro diz que houve avanços: em 2026 o método será implementado em 54 municípios do país, totalizando 70 até o final do ano.
Moreira explica que a técnica leva em torno de dois anos para mostrar resultados e ressalta que não é uma fórmula mágica, e sim uma estratégia complementar a outras, como a vacina.
Os “wolbitos” de Moreira descendem de Aedes aegypti inoculados com Wolbachia quase duas décadas atrás na Austrália, onde o cientista fez seu pós-doutorado em entomologia.
A equipe da qual ele fazia parte descobriu em 2008 que essa bactéria comum em outros insetos bloqueia a dengue, a zika e a chikungunya.












