Enquanto o Ministério Público e alguns políticos se movimentam para tentar cancelar o leilão de capacidade de energia promovido pelo Governo em março, a Eneva, a principal vencedora da disputa, tem ignorado o enorme barulho ao redor.
A companhia – que tem o BTG Pactual como maior acionista – já investiu R$ 2,2 bilhões para começar as obras dos diversos projetos que conseguiram contratos na licitação.
“É óbvio que essas contestações incomodam, geram um incômodo, dão trabalho. Mas não acreditamos, em hipótese nenhuma, que isso vai colocar em risco a sequência do processo,” disse Marcelo Lopes, o diretor de Comercialização e Novos Negócios da Eneva, na call de resultados de hoje.
“Sabemos que essa energia é necessária, essa capacidade adicional é necessária para a segurança do País.”
O leilão de março foi o maior da história, contratando 19 gigawatts em de termelétricas e hidrelétricas. Essa capacidade é defendida por técnicos e pelo Governo como vital para evitar riscos de blecautes já este ano, principalmente no pico de demanda da noite, quando o consumo aumenta e não há geração solar no sistema.
A Eneva respondeu por quase um terço do volume do leilão, superando rivais como a Petrobras e a Âmbar, da J&F. No total, os projetos da companhia demandarão R$ 18 bilhões.
Os resultados passaram a ser contestados já nos dias seguintes – primeiro com a Âmbar questionando eventuais falhas no sistema computacional da licitação e alegando que foi prejudicada na competição.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) rejeitou os recursos da empresa, mas em seguida políticos liderados pelo deputado Danilo Forte se movimentaram para tentar sustar o leilão por meio de um Projeto de Decreto Legislativo (PLD) no Congresso.
Em paralelo, o Ministério Público Federal entrou com uma ação judicial pedindo a suspensão da licitação.
O leilão, no entanto, ocorreu após diversos adiamentos, com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alertando para riscos de falta de energia sem a sua realização, e em um contexto de oferta apertada de turbinas a gás no mercado internacional.
“De fato, a competição foi muito baixa. Praticamente quem bidou levou. Mas é como se o Governo tivesse deixado para comprar uma passagem aérea uma hora antes do voo,” disse um banqueiro que assessorou empresas na disputa.
O argumento da urgência na licitação foi acatado pelo próprio Tribunal de Contas da União (TCU), que chegou a questionar o aumento dos preços-teto mas decidiu não interferir antes da realização do certame.
“Não era um leilão para contratar a energia mais barata do mundo, era um leilão para evitar um apagão,” Adriano Pires, o fundador do CBIE, escreveu aqui no Brazil Journal.
Em meio à disputa nos bastidores, a Aneel ainda não homologou os resultados.
Na Eneva, porém, a confiança era tanta que a companhia começou a investir antes mesmo do leilão.
A companhia entrou na concorrência com 14 turbinas já compradas, e começou trabalhos de terraplanagem para um projeto em Sergipe um mês antes da licitação.
A aposta da Eneva não é somente de que o leilão será mantido, mas de que ainda serão necessários muitos outros para evitar riscos ao sistema elétrico.
Na call de hoje, os executivos da empresa disseram acreditar que o País demandará mais 40 GW em capacidade para reforçar a rede até 2035 – o equivalente a quatro usinas de Belo Monte – e afirmaram que a o grupo tem uma carteira de projetos de 10 GW já prontos para as próximas disputas.












