Maceió afundou. Agora, começa o julgamento da Braskem


Documentos obtidos pela PF mostram que a empresa Salgema (que foi absorvida pela Braskem em 2002) sabia desde pelo menos 1988 que a extração de sal-gema causava afundamento do solo e colocava em risco uma área residencial inteira da capital alagoana. Uma série de relatórios sobre os impactos foram encaminhados nos anos seguintes, mas nada foi feito.

O MPF acusa a Braskem de ter adotado uma “estratégia corporativa de ocultação sistemática” para garantir a lucratividade e o abastecimento de suas indústrias.

A principal fraude documental teria ocorrido em 2012 e 2013, quando a empresa protocolou petições junto ao então DNPM, o órgão de fiscalização mineral, afirmando falsamente que a operação era “invariavelmente segura” e que “não havia qualquer evidência de rebaixamento do solo” na localidade. Isso, segundo o MPF, ocorreu enquanto dados internos mostravam um afundamento de 1,20 metro.

O rebaixamento começou a se tornar visível para a população em março de 2018, após um tremor que deixou as rachaduras expostas nos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. A Braskem respondeu com mais documentos negando que era a causadora do problema e alegando que os impactos da extração mineral eram “irrelevantes”.

Cerca de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas ou fechar seus negócios a partir de 2018, bairros foram esvaziados e imóveis, demolidos. A área virou um campo vazio pontuado por equipamentos de monitoramento. A previsão é que o solo só se estabilize por volta de 2040, quando a região poderá ser convertida em parque.

O caso da Braskem em Maceió é, na sua essência, uma radiografia de como uma parcela da nossa classe dominante opera: privatiza lucros, socializa prejuízos, compra silêncio institucional e, quando o chão literalmente desmorona, ainda tenta culpar a geologia.





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