Por que o SUS ainda prescreve drogas ineficazes contra o câncer de próstata


“Na oncologia, a diferença entre os pacientes tratados no serviço público e no privado costuma ser gritante”, reconhece o oncologista Fernando Sabino, do Hospital Sírio Libanês, em Brasília, um dos autores da análise. “Nos hospitais particulares, os pacientes vivem muito mais porque têm acesso aos melhores tratamentos. Mas começamos a perceber que, no SUS, a dificuldade de acesso não ocorre por falta de dinheiro, mas por desorganização e por não existir uma política nacional que defina a jornada desse indivíduo, ou seja, o que deve ser feito com ele quando alcança esse estágio do câncer.”

Assim, a ideia do time de pesquisadores era se debruçar sobre os custos e ver se, sem tirar uma única moeda a mais dos cofres públicos, não daria para oferecer melhores soluções, trocando algumas terapias boas por outras um pouco melhores. Foi aí que veio à tona a revelação de que praticamente um em cada cinco homens recebe remédios nada bons, simplesmente porque nem deveriam constar mais como uma opção para o seu caso.

Quando o câncer de próstata avança

Os médicos dizem que um tumor de próstata é avançado quando não dá mais fazer algo apenas no local, isto é, na glândula doente. “É quando temos de apelar para um tratamento sistêmico para controlar a doença”, explica Fernando Sabino. Ele se refere à quimioterapia, que age da cabeça aos pés para atacar alguma célula maligna que tenha escapado para gerar metástases, e a remédios que suprimem a produção de testosterona. Eles, aliás, são recrutados antes.

“O hormônio masculino funciona como um combustível para as células do tumor. Então, para controlá-las, a gente primeiro usa a tal da castração química, expressão que acho um tanto forte”, conta o médico. “Na verdade, são injeções mensais, trimestrais ou até mesmo semestrais que reduzem a liberação do hormônio masculino.” Também pode-se apelar para uma raspagem dos testículos, que são a “fábrica” da testosterona.

Mas a realidade é que isso funciona muito bem por um tempo, geralmente uns três ou quatro anos. Se a doença já avançou a esse ponto, infelizmente chega uma hora em que ela passa a crescer sem depender mais do abastecimento de hormônio masculino. Como? A célula tumoral pode se tornar independente, produzindo por conta própria a sua porção de testosterona para seguir em frente. “E até antes disso acontecer, surgem clones das células malignas que já conseguem sobreviver com uma quantidade muito baixa de hormônio”, observa Sabino.



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