Quem é o grupo católico que desafia o papa Leão XIV e deve ser excomungado da Igreja Católica


Papa Leão XIV explica escolha do nome

Inspiração foi Leão XIII, que chefiou a Igreja no fim do século 19.

Um evento realizado nesta quarta-feira, 1.º, no pequeno vilarejo de Écône, na Suíça, marcou o primeiro grande racha da Igreja Católica sob o comando do papa Leão XIV, líder supremo do catolicismo desde maio do ano passado. O grupo fundamentalista Fraternidade Sacerdotal de São Pio X realizou a consagração de quatro novos bispos — ou seja, promovendo-os ao episcopado.

O problema é que, de acordo com as normas da Igreja Católica, todo bispo precisa ser nomeado pelo papa. E a consagração dos padres Pascal Schreiber, da Suíça; Michael Goldade, dos Estados Unidos; Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, ambos da França, ocorre à revelia do Vaticano.

Fraternidade nomeou quatro bispos à revelia do papa e deve ser excomungada. Foto: FSSPX.News

Em termos práticos, o ato em si configura excomunhão automática da Igreja. Mas o impacto dessa rebeldia religiosa escancara a polarização ideológica que há tempos vive atritos e tensões sob o Vaticano — e preocupa Leão e toda a cúpula do catolicismo.

Nos últimos dias, buscou-se abafar o princípio de incêndio. No dia 24, carta aberta assinada pelo superior do grupo, o padre italiano Davide Pagliarani, e dirigida ao papa, mencionou seis vezes a palavra “Tradição”, com inicial maiúscula, cobrando que esta seja colocada, assim como a “pureza da fé”, como “fundamento da vida da Igreja”.

No dia 29, Leão publicou uma carta à organização, dizendo que com “sentimentos paternos” sente “o dever” de pedir a eles para “desistirem do propósito” — ou seja, a nomeação irregular de bispos. “Rasgar a túnica de Cristo é um pecado de extrema gravidade”, pontuou o papa.

A resposta veio em novo comunicado público, na qual os membros da ordem rechaçaram o apelo papal, dizendo que “devemos fazer todo o possível para remendar a túnica de Cristo, rasgada por forças e pressões incompatíveis com um autêntico espírito católico”.

A reportagem do Estadão solicitou entrevista aos porta-vozes da Fraternidade, mas não obteve resposta.

Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), a Fraternidade de São Pio X foi uma das respostas aos avanços do Concílio Vaticano 2º, série de encontros ocorridos entre 1962 e 1965 com o objetivo de trazer a Igreja Católica para a contemporaneidade, tornando a liturgia mais acessível e assumindo compromissos sociais de combate à pobreza, entre outros pontos, como a importância do ecumenismo.

Os seguidores de Lefebvre, por exemplo, continuaram celebrando as missas pelo rito tridentino, formato também chamado de “missa antiga” — com o padre de costas para a assembleia e as orações em latim.

Ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto explica que a posição da Fraternidade, reafirmada, é de “firme oposição ao Concílio Vaticano 2º” e eles entendem como necessário um “regresso à tradição”. “Acontece que tanto o papa quanto o Concílio são reconhecidos como autoridade pela Igreja”, pondera o sociólogo.

Longe de ser irrelevante, a organização tem entre seus adeptos pelo menos 700 padres em todo o mundo — e, calcula-se, cerca de 500 mil fiéis católicos sigam essa vertente. Nesta quarta-feira, por exemplo, 15 mil leigos participaram da celebração em Écône. A cerimônia foi transmitida ao vivo em seis idiomas.

O evento desta quarta repete uma situação muito parecida ocorrida em 1988 no mesmo vilarejo suíço. Na ocasião, o próprio Lefebvre nomeou ali quatro novos bispos, também sem anuência do Vaticano. O papa João Paulo 2º (1920-2005) excomungou os cinco — e essa decisão só acabaria revertida em ato do papa Bento 16 (1927-2022), em 2009.

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“Não é uma questão do papa contra os tradicionalistas ou os conservadores. Há grupos conservadores em comunhão com a Igreja”, contextualiza o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor da instituição Lay Centre, também em Roma. “É um problema doutrinal: eles não estão seguindo a doutrina da Igreja. No passado e agora, estão nomeando bispos sem a ordenação papal, rompendo com o respeito à autoridade do sumo pontífice.”

Em casos assim, a excomunhão é considerada automática. É a chamada excomunhão latae sententiae, “sem necessidade de declaração formal”, porque se entende que o ato em si já confirma um afastamento da comunhão eclesial, já que decorre do desrespeito a orientações fundamentais da Igreja.

“Mas os fiéis que frequentam as missas (deste grupo) não são automaticamente condenados”, explica Ribeiro Neto. “A posição histórica do Vaticano é não recomendar a prática, alertando para o risco de absorver uma ‘mentalidade cismática’, mas não há obrigação de deixar de frequentar sob pena de pecado grave, a menos que a pessoa adira formalmente à rejeição da autoridade papal.”

Seja no latim dos membros da Fraternidade, seja no inglês nativo de Leão, seja no italiano do dia a dia dos corredores do Vaticano, a questão está posta sobre a mesa do papa. “Se ele não tomar nenhuma providência, acabará tendo sua autoridade contestada. Mesmo que isso possa parecer para alguns como um ato de compaixão, tolerar essa desobediência pode incentivar outros grupos fundamentalistas a fazer o mesmo”, avalia o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A situação ficaria incontornável.”

“Não dá para fechar os olhos. Acho pouco provável que Leão finja que o problema não existe, porque seria tolerar um ato de rebeldia que poderia servir como estopim para uma série de outras rebeliões”, acrescenta ele.

Para Domingues, o papa está diante de “um golpe certeiro e doloroso”, já que tem se esforçado para “trazer todo mundo em volta da mesma mesa”.

“O que vai acontecer a partir de agora ainda é incerto. A Igreja faz um grande esforço para manter a unidade. Esta tem sido uma preocupação explícita de Leão XIV”, analisa Ribeiro Neto. “Mas a Fraternidade tem respondido de forma acintosa aos esforços de integração.”

“É uma decisão política do Vaticano, mas que será tomada com atenção pastoral”, acrescenta. Borba acredita que o papa não esteja se perguntando sobre “como castigar”, mas sim “como acolher o rebanho disperso e mantê-lo unido”.

Presença da Fraternidade no Brasil

A Fraternidade chegou ao Brasil ainda nos anos 1980, por meio de padres que conheceram Lefebvre. Mas ganhou força mesmo neste século 21, sobretudo pelo crescimento de correntes fundamentalistas dentro das igrejas. No Brasil, há hoje 14 capelas mantidas pela organização, espalhadas em quatro das cinco regiões da federação. São unidades em:

  • São Paulo
  • Indaiatuba (SP)
  • Ribeirão Preto (SP)
  • Sorocaba (SP)
  • Itapetininga (SP)
  • São José do Rio Preto (SP)
  • Passos (MG)
  • Curitiba (PR)
  • Cuiabá (MT)
  • Campo Grande (MS)
  • Fortaleza (CE)
  • Parnaíba (PI)
  • Teresina (PI)
  • São Luís (MA)

Por meio da assessoria de imprensa, a Arquidiocese de São Paulo, respondendo ao questionamento da reportagem a respeito do posicionamento diante dessa questão, ressaltou que a Fraternidade é uma “instituição autônoma” e que, embora “esteja presente no território” da mesma, não tem nenhuma relação com ela tampouco está sob sua jurisdição.



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