Tempestade força evacuação no National Mall antes de discurso de Trump pelos 250 anos dos EUA


EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

O passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. Crédito: Estadão

WASHINGTON (AP) — Os planos do presidente Donald Trump de comemorar o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos com um comício no National Mall foram complicados neste sábado, 4, por fortes tempestades que se formaram perto de Washington, forçando os organizadores do evento a ordenar uma evacuação.

“O Freedom 250 divulgará atualizações sobre a programação e a reabertura dos portões”, disse a porta-voz do Freedom 250, Danielle Alvarez, em comunicado que orientou os participantes a buscar abrigo em museus e prédios federais próximos ao National Mall. O metrô de Washington também informou que várias de suas estações subterrâneas estavam disponíveis como abrigo.

A Guarda Nacional evacua o National Mall, em Washington, por causa da ameaça de tempestade: atraso nas comemorações do 4 de julho de 250 anos da independência dos Estados Unidos. Foto: KEVIN DIETSCH/AFP

Pelas redes sociais, Trump anunciou que iria discursar “aconteça o que acontecer”. “Tempestades trazem sorte para qualquer ocasião. Elas também tornam os eventos um pouco mais emocionantes! Vamos esperar passar, não importa se forem 2h da manhã ou daqui a uma hora. Parece que vai passar, como sempre. Estarei lá, aconteça o que acontecer, mas o ‘acontecer’ geralmente acaba sendo algo bom”, escreveu. “Não vou deixar que uma chuva atrapalhe nossas comemorações de 250 anos.”

Os planos para os fogos de artifício seguiam de pé em outras cidades, como Chicago e Nova York, onde veleiros de grande porte desfilaram diante da Estátua da Liberdade mais cedo no mesmo dia, evocando a pompa do bicentenário americano, em 1976.

A expectativa pelo feriado histórico vinha crescendo ao longo de boa parte do ano, servindo como uma oportunidade para os americanos refletirem sobre sua história complicada, de ex-colonos de um império que se tornaram, eles próprios, uma superpotência. Organizadores de celebrações planejadas havia meses tiveram que ajustar ou cancelar completamente atividades, enquanto grande parte da Costa Leste sufocava sob um calor que se aproximou — e em muitos casos superou — os 38°C.

Após um dia de calor intenso, a tempestade causou o atraso nos festejos do 4 de Julho em Washington.  Foto: JOE RAEDLE/AFP

Calor marca o grande fim de semana em muitos lugares

O transtorno foi particularmente grande em Washington, onde telões da Great American State Fair exibiram um alerta pouco depois das 19h (horário local), orientando os participantes a deixar a área. Enquanto a ordem de evacuação era transmitida pelos alto-falantes no National Mall, algumas pessoas pareciam permanecer paradas, conversando com quem estava ao redor, sem sair do local, enquanto outras caminhavam em direção às saídas. Soldados da Guarda Nacional orientavam as pessoas a deixar a área.

O Serviço Secreto americano anunciou o fechamento temporário dos pontos de revista que fariam a triagem do público antes do discurso de Trump, programado para começar por volta das 22h (horário local).

Entre a multidão, o orgulho de ser americano

A multidão vinha crescendo na região várias horas antes do discurso. Tina Hale, de 58 anos, de Cohoes, no Estado de Nova York, observava três de seus netos mergulharem as mãos em um espelho d’água perto de um museu. Hale apontou para o céu e pediu que olhassem para cima quando três jatos militares rugiram sobre a multidão.

“Se isso não te deixa orgulhoso de ser americano…”, disse ela.

O calor chegou a 38 ºC neste 4 de julho, em Washington: crianças se refrescam no Capitol Hill.  Foto: J. Scott Applewhite/AP

David Koshko, de 42 anos, e sua mulher, Jennifer Koshko, de Harrisburg, na Pensilvânia, foram a Washington para um jogo de beisebol, mas planejavam ficar para o show de fogos da cidade. Depois de horas torrando no calor durante a vitória do Pittsburgh Pirates sobre o Washington Nationals, eles descansavam à sombra de um viaduto perto do National Mall para planejar a próxima parada.

“Só de fazer parte dos 250 anos já é uma coisa incrível”, disse David Koshko, motorista profissional e veterano da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais.

Na Filadélfia, os fogos começaram a estourar já ao meio-dia no berço da nação, perto do local onde a Declaração de Independência foi adotada pelos delegados do Segundo Congresso Continental. Centenas de visitantes se reuniam no Independence Hall, sob calor sufocante, à espera das celebrações que coincidiam com o jogo eliminatório da Copa do Mundo entre França e Paraguai no estádio da Filadélfia, iniciado com homenagens ao feriado.

“Aqui está uma grande festa”, disse Carlos Alban, que viajou de Chicago à Filadélfia para assistir à partida, ao chegar ao estádio, acrescentando que viu no estacionamento um torcedor vestido como um dos Pais Fundadores.

Cerca de 45 minutos antes de outra partida da Copa do Mundo, em Houston, entre Canadá e Marrocos, uma mensagem de astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional celebrando a data foi transmitida no estádio.

Em Nova York, veleiros de grande porte, com mastros, cordames e velas brancas recortados contra o céu azul, desfilaram em procissão ao redor da Estátua da Liberdade e subiram o Rio Hudson.

Os 43 navios foram seguidos por uma demonstração de poderio aéreo, com um bombardeiro stealth e os Blue Angels, da Marinha. A Patrouille de France, esquadrilha acrobática da Força Aérea francesa, sobrevoou o porto de Nova York com seus rastros em vermelho, branco e azul, evocando imagens da bandeira americana.

“Acordamos cedo e pedalamos cerca de um quilômetro e meio até aqui para ver a cena”, disse Oona Moore, moradora de Jersey City, em Nova Jersey, que acompanhou as festividades em Nova York. “Vimos os veleiros e vimos os aviões, sabe, todo tipo de aeronave militar. Nunca vi tudo isso tão de perto e no céu ao mesmo tempo.”

Barco do Corpo de Bombeiros de Nova York durante os festejos dos 250 anos da independência dos Estados Unidos. Foto: Frank Franklin II/AP

Em Mount Vernon, a antiga propriedade de George Washington, pessoas fizeram o Juramento de Fidelidade para se tornar cidadãs americanas. Elas permaneceram de olhos fechados e mãos sobre o coração durante o hino nacional.

Uma nação inquieta se prepara para celebrar

Desfile de barcos e veleiros próximo à Estátua da Liberdade, em Nova York.  Foto: ANGELA WEISS/AFP

Trump conversou no sábado com líderes mundiais, incluindo o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que congratularam os EUA enquanto travam uma guerra entre si. O presidente também recebeu mensagens do rei Charles III, do Reino Unido, e do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nos últimos dias.

Dentro dos EUA, as celebrações se desenrolam contra o pano de fundo de uma divisão profunda neste ano eleitoral — uma fratura que vem se ampliando há anos, visível em tudo, da expressão política às normas culturais, passando por questões antigas sobre raça, classe e imigração.

No Monte Rushmore, na sexta-feira, Trump falou do comunismo como uma “ameaça mortal à liberdade americana”, com o presidente republicano afirmando que ele seria mais perigoso do que as duas Guerras Mundiais ou o 11 de Setembro.

Sem citar Trump nominalmente, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani — democrata que também é socialista democrático e recentemente apoiou vários candidatos ao Congresso vitoriosos nas primárias —, pareceu fazer referência ao presidente em discurso na sexta-feira.

“Esses ideais sobre os quais nossa nação foi construída são fortes o suficiente para resistir a qualquer regime autoritário, mas apenas se nós os buscarmos”, disse ele.

O vice-presidente J.D. Vance afirmou que vozes pequenas, porém barulhentas, falariam no aniversário dos Estados Unidos sobre suas imperfeições, em vez de sua grandeza.

“Eles vão dizer que os Estados Unidos são apenas mais um país, onde os fracos lutam contra os fortes”, disse Vance, discursando a bordo do USS Kearsarge, no porto de Nova York.

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