Xarope não cura tosse e pode causar efeitos colaterais


A procura por xarope para tosse costuma se intensificar entre junho e julho, no início do inverno. Basta dar uma olhada no Google Trends, ferramenta que monitora o interesse por termos pesquisados no maior buscador do mundo. Isso ocorre porque, nesse período, as infecções respiratórias tendem a aumentar, e as pessoas — principalmente os pais — passam a buscar mais informações sobre medicamentos.

Mas a popularidade desses produtos não significa que eles funcionem para todos os quadros. Embora existam dezenas de opções nas farmácias, as evidências científicas disponíveis indicam que a maioria dos xaropes tem benefício limitado ou inexistente para a tosse aguda provocada por infecções virais, especialmente em crianças.

“Do ponto de vista médico, não existe um xarope com eficácia comprovada para tratar a maioria dos casos de tosse aguda causada por resfriados e outras infecções virais comuns da infância”, afirma Elisabeth Fernandes, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). 

 

O que é a tosse?

Quando um vírus entra em contato com a mucosa do nariz, da garganta, da laringe ou dos brônquios, o sistema imunológico reconhece esse invasor e inicia uma resposta de defesa.

As células de defesa liberam substâncias inflamatórias, aumentam a produção de muco e atraem outros componentes do sistema imunológico para combater o agente infeccioso. Todo esse processo inflamatório irrita terminações nervosas das vias respiratórias e ativa o reflexo da tosse.

“A tosse é uma consequência da inflamação e, ao mesmo tempo, uma ferramenta para remover secreções, partículas e restos do processo infeccioso”, explica Paulo Telles, também pediatra da SBP.

Na maior parte das crianças, diz o especialista, a tosse associada aos resfriados melhora espontaneamente à medida que a infecção viral é controlada pelo próprio organismo.

 

Tosse demora para passar — independentemente do xarope

Existe um tempo para que tudo o que foi descrito no tópico anterior aconteça. Segundo Telles, a tosse costuma durar mais do que a febre e o nariz escorrendo, podendo persistir por até 10 a 14 dias nos quadros virais mais comuns. E é justamente esse o ponto.

“Temos que ressaltar que com ou sem xarope essa evolução acontece de forma igual. O uso de remédios não reduz gravidade, tempo ou risco de complicações, e não existem evidências que tragam benefícios, podendo inclusive levar a efeitos colaterais e riscos”, explica o médico. 

Alguns dos efeitos adversos são sonolência, irritabilidade, agitação, náuseas, vômitos e taquicardia.

“Em crianças pequenas, especialmente menores de dois anos, podem ocorrer efeitos mais graves, como depressão respiratória, alteração do nível de consciência e intoxicações por erro de dose”, alerta Fernandes.

Veja também: Xaropes para tosse têm eficácia limitada e não devem ser usados sem prescrição

 

O que dizem as evidências científicas?

Um dos estudos mais citados pelos médicos é uma revisão da Cochrane, organização internacional dedicada à produção e divulgação de evidências científicas em saúde. Publicado em 2014, o trabalho reuniu 29 ensaios clínicos envolvendo 4.835 participantes para avaliar a eficácia de medicamentos de venda livre contra a tosse aguda em crianças e adultos.

O resultado? “Não foram encontradas boas evidências a favor ou contra a efetividade dos medicamentos de VL (venda livre) na tosse aguda”, escreveram os pesquisadores. Além disso, “19 estudos relataram efeitos adversos destes medicamentos e descreveram efeitos colaterais infrequentes, principalmente menores, tais como náuseas, vômitos, dor de cabeça e sonolência”, relatou o estudo. 

As entidades médicas também vão na mesma linha. A American Academy of Pediatrics (AAP), por exemplo, recomenda que medicamentos para tosse e resfriado não sejam utilizados rotineiramente em crianças pequenas devido à ausência de benefícios clínicos consistentes e ao risco de eventos adversos.

As diretrizes do American College of Chest Physicians (CHEST) também citam que o manejo da tosse pediátrica deve ser baseado na identificação da causa e não no uso rotineiro de supressores da tosse.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue direção semelhante. Em uma revisão técnica publicada em 2001, a entidade afirmou que a tosse exerce uma função importante na eliminação de secreções das vias respiratórias e não deve ser encarada, por si só, como uma doença que precisa ser tratada. O documento também cita a falta de evidências robustas de benefício para diversos medicamentos usados contra tosse e resfriado.

 

Como tratar a tosse?

Na maioria dos casos, medidas simples trazem mais benefício do que os xaropes. Alguns exemplos são:

  • lavagem nasal com solução salina;
  • hidratação adequada;
  • controle da rinite quando presente;
  • ambiente livre de fumaça e outros agentes irritantes;
  • mel, que possui evidências científicas para melhora da tosse noturna, para crianças acima de um ano;
  • tempo e observação da evolução clínica.

“Costumo explicar aos pais que não existe um xarope capaz de ‘curar’ a tosse. Muitas vezes, a melhor conduta é oferecer conforto à criança enquanto o organismo se recupera. Além disso, evitar medicamentos desnecessários reduz o risco de efeitos colaterais e de exposições que não trazem benefício comprovado”, diz Roberta Pilla, otorrinolaringologista da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). 

 

Sinais de alerta: quando se preocupar?

Segundo Pilla, o desafio é identificar quando a tosse faz parte da recuperação natural e quando pode indicar alguma doença que necessite tratamento específico. Os pais devem procurar avaliação médica quando a tosse vier acompanhada de sintomas como:

  • falta de ar ou respiração acelerada;
  • afundamento das costelas para respirar;
  • chiado importante no peito;
  • febre alta persistente;
  • lábios arroxeados;
  • sonolência excessiva ou prostração;
  • dificuldade para se alimentar ou beber líquidos;
  • tosse que dura mais de quatro semanas;
  • episódios de engasgo ou suspeita de aspiração de corpo estranho;
  • tosse com sangue.

“Nessas situações, é importante investigar causas como pneumonia, asma, bronquiolite, coqueluche ou outras condições respiratórias”, esclarece a especialista. 

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