A relação entre câncer e exercício físico mudou, e a ciência explica o porquê


‘O câncer não precisa ser o fim do movimento’

Tania Tonezzer escalou a montanha do sítio arqueológico Tepozteco seis meses após a quimioterapia e defende que a atividade física é parte do tratamento. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg

Quando comecei a prática clínica, existia uma ideia quase automática em torno do câncer: a de que o corpo precisava reduzir o ritmo, evitar esforço. Hoje, uma das mudanças mais importantes da oncologia é entender que permanecer em movimento pode ajudar o paciente a enfrentar melhor o tratamento e ter um melhor desfecho.

Essa mudança vem sendo sustentada por evidências científicas cada vez mais robustas. Estudos recentes associam a prática regular de atividade física não apenas à redução do risco de desenvolver diversos tipos de câncer, mas também à melhora da qualidade de vida e da capacidade funcional durante o tratamento oncológico, e um aumento da eficácia do tratamento com imunoterapia.

Vejo com frequência pacientes que conseguem preservar autonomia, disposição e qualidade de vida porque mantiveram algum nível de atividade física ao longo do processo de superação da doença. Não estamos falando necessariamente de academia ou exercícios intensos. Mas, sim, de caminhar, fortalecer a musculatura, recuperar energia e manter o corpo ativo dentro das possibilidades.

Pesquisas mostram que manter-se ativo durante o tratamento oncológico pode aumentar a eficácia das terapias e melhorar a qualidade de vida dos pacientes Foto: karrastock/Adobe Stock

Em relação ao risco de desenvolver um câncer, um dos estudos mais robustos sobre o tema, publicado no JAMA Internal Medicine em 2016, analisou 1,44 milhão de adultos nos Estados Unidos e na Europa. O resultado foi relevante e claro: pessoas com níveis mais elevados de atividade física no tempo livre apresentaram menor risco de desenvolver ao menos 13 tipos de câncer, entre eles os de mama, cólon, pulmão, rim, fígado e endométrio.

Quando falamos de pacientes já em tratamento, efeitos comuns como fadiga, perda de massa muscular, indisposição e alterações emocionais podem impactar bastante a rotina. Mas uma revisão sistemática publicada no Lancet Healthy Longevity em 2026, que reuniu 21 estudos clínicos randomizados e mais de 3 mil pacientes, mostrou que a prática de exercícios físicos teve efeito positivo significativo na qualidade de vida durante a quimioterapia. Atividades aeróbicas, musculação ou a combinação dos dois apresentaram benefícios consistentes, inclusive com melhora de disposição e capacidade funcional.

Pesquisas também começam a observar associação entre atividade física e menor toxicidade à imunoterapia. Em uma análise publicada no Journal of the National Cancer Institute em 2024, pacientes fisicamente mais ativos apresentaram incidência significativamente menor de efeitos adversos ao longo de um ano de acompanhamento quando comparados aos mais sedentários.

Evidentemente, a recomendação precisa ser individualizada. O tipo de câncer, o estágio da doença, os sintomas e as condições clínicas devem ser considerados antes da definição da atividade mais adequada. Mas o sedentarismo também passou a ser uma preocupação relevante na oncologia.

Outro ponto que considero especialmente importante é após o tratamento. Sabemos que a recuperação vai além do término da quimioterapia ou da cirurgia. O organismo segue se reorganizando, e o acompanhamento continua.

Estudos retrospectivos compilados pelo Reviews in Oncology/Hematology (2025) sugerem que a atividade física regular após o tratamento está associada à melhora de prognóstico e à redução do risco de recorrência em alguns tipos de câncer.

Mas a conclusão definitiva veio de um estudo randomizado que comparou a atividade física moderada por três anos versus somente hábitos saudáveis em pacientes com câncer de cólon, os quais haviam sido operados e, depois, tratados com quimioterapia preventiva. Publicado no New England Journal of Medicine (2025), o trabalho mostrou um resultado simplesmente incrível: pacientes alocados no braço do exercício estruturado tiveram um aumento na taxa de cura em termos absolutos de 7% quando comparados com o braço controle. Embora o estudo tenha incluído somente pacientes com câncer de cólon, julgamos que os dados são extrapoláveis a outros cânceres.

A ciência também começa a investigar algo ainda mais fascinante: a relação entre exercício, microbiota intestinal e imunidade tumoral. Pesquisas publicadas na Frontiers in Immunology (2023) e na revista Cell (2025) demonstram que, quando os músculos contraem, eles liberam substâncias que estimulam o sistema imune (chamadas de miocinas). Ademais, o exercício também influencia positivamente a microbiota intestinal, algo que melhora a resposta à imunoterapia.

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No Brasil, esse debate também precisa ganhar espaço. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o País deve registrar cerca de 704 mil novos casos de tumores por ano entre 2023 e 2025. Ao mesmo tempo, dados do Ministério da Saúde mostram que uma parcela importante da população ainda não atinge o nível mínimo recomendado de atividade física. Quando pensamos em prevenção, qualidade de vida e saúde pública, é impossível ignorar essa conexão.

E talvez esse seja o ponto mais importante: exercício físico não precisa significar alto rendimento, academia intensa ou metas difíceis. Mais do que performance, o que está em jogo é preservar independência, energia e funcionalidade.

Acompanhei avanços extraordinários no tratamento do câncer nos últimos 38 anos. Novas terapias, medicina de precisão, imunoterapia e diagnósticos cada vez mais sofisticados vêm transformando a forma como cuidamos dos pacientes. Mas, na oncologia, aprendemos todos os dias que tratamento vai além da medicação. Ele envolve ciência sim, mas acolhimento e escolhas que ajudam o organismo a funcionar melhor tem grande relevância.

A atividade física não substitui terapias oncológicas, mas, hoje, sabemos que ela pode contribuir para o aumento das taxas de cura e para o paciente atravessar o tratamento com mais autonomia, funcionalidade e qualidade de vida.



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