“Tô ruim do fígado.” Essa é a queixa mais comum dos que exageraram na bebida e na feijoada do sábado. Se vomitam, então, a cor amarelada do suco gástrico lhes dá a certeza de que é a bile.
Considerar males hepáticos, as irritações gástricas causadas pelos excessos de álcool e de alimentos gordurosos, faz parte da cultura popular. Nem sempre inócuos, os chás receitados pelas avós do Brasil inteiro estão presentes em quase todas as casas. Nas farmácias, remédios “hepatoprotetores” ou “desintoxicantes” são campeões de vendas.
Convencer as pessoas de que não existem medicamentos dotados dessas propriedades milagrosas é tarefa inglória.
Sabemos há muitos anos que o álcool provoca cirrose e câncer de fígado. A medicina do século 20, entretanto, demonstrou que tais complicações podem ter outras causas: genéticas, imunológicas, metabólicas e até medicamentosas.
Na faculdade, aprendíamos que os pacientes com provas de função hepática alteradas nos exames de sangue, por definição abusavam do álcool. Quando um deles contava que só bebia ocasionalmente ou nunca, não confiávamos na resposta. A mesma desconfiança acontecia com os cirurgiões que, ao abrir a cavidade abdominal, davam de cara com o tecido hepático infiltrado por gordura em pacientes que juravam abstinência.
No mundo da ciência, ninguém levava em conta as técnicas empregadas pelos produtores de foie gras, que alimentavam os gansos ad libitum para engordá-los, a ponto de deixar o fígado infiltrado por grandes quantidades de gordura. As aves desenvolviam esteatose sem beber uma gota de álcool sequer.
A descrição de hepatites crônicas que não guardam relação com o uso de álcool fez a medicina acordar para as características dessa disfunção. Estudos epidemiológicos demonstraram que elas são uma das principais causas de cirrose e de carcinoma hepático, condições responsáveis pelo aumento da incidência dessas doenças no mundo inteiro nas últimos décadas.
O advento da ultrassonografia, exame que permitiu avaliar a consistência do fígado, e a epidemia de obesidade que se disseminou pelo mundo a partir dos anos 1990 explicam por que a esteatose hepática se tornou um problema relevante de saúde pública.
Em 2021, a Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL) publicou na revista The Lancet um estudo mostrando que as enfermidades hepáticas constituíam a segunda causa de perda de anos de trabalho nos países europeus –atrás apenas das cardiovasculares.
Neste mês, a Assembleia Mundial de Saúde se prepara para incluir a esteatose hepática —associada ou não ao álcool— no grupo de doenças não comunicáveis, como as cardiovasculares, a diabetes e outras. É um passo importante: morrem de cirrose ou de câncer de fígado cerca de 780 pessoas por dia no continente europeu. Lá, a mortalidade por câncer de fígado aumentou cerca de 50% nos últimos 20 anos.
Os fatores de risco da esteatose hepática são os mesmos de outras doenças crônicas que acompanham o envelhecimento populacional: obesidade, abuso de álcool, diabetes tipo 2, pré-diabetes, colesterol e triglicérides elevados, hipertensão, síndrome metabólica, consumo excessivo de açúcares, de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e apneia do sono, além de outros. A tendência atual é a de reduzir o impacto desses fatores por meio de estratégias de prevenção comuns às demais doenças crônicas.
Médicos e pacientes costumam ser tolerantes diante de um ultrassom que mostra esteatose hepática, especialmente quando o radiologista relata tratar-se de um quadro leve ou moderado. É comum ouvir as pessoas dizerem: “Estou ótimo, não sinto nada, tenho só um pouco de gordura no fígado”.
Quadros iniciais são justamente os que oferecem a oportunidade de reversão, desde que sejam adotadas as medidas adequadas: atividade física, mudança dos hábitos alimentares, abstinência de álcool, medicações para controlar a pressão arterial, a glicemia e o colesterol e, o mais importante, perder peso.
Paradoxalmente, a pobreza de sintomas associados à esteatose é uma barreira para o tratamento nas fases iniciais. O diagnóstico costuma ser feito quando a cirrose está avançada e o carcinoma hepático já não pode ser operado.
O professor Luiz Caetano da Silva, um dos primeiros hepatologistas do país, nos ensinava: “Estejam atentos, o fígado sofre calado”.
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