Ela acredita que, amanhã ou depois, a survodutida deverá ser a primeira molécula nas farmácias combinando análogos do GLP-1 e do glucagon. E justifica: “Existiram outras tentativas de criar esse duplo agonista que não deram certo. Aliás, seria interessante esclarecer: não é só juntar essas duas substâncias que será tudo igual. Há, por trás de um candidato a remédio, toda uma engenharia de moléculas. Elas terminam sendo diferentes, o que faz com que umas vinguem e outras, não. A survodutida já superou as primeiras barreiras e é foco de estudos robustos, em fases mais adiantadas, que estão para sair. O SYNCHRONIZE 1 é apenas um deles. Portanto, tudo leva a crer que irá em frente.”
Quando Cintia diz acreditar nessa possibilidade, ela sabe do que fala. Há 26 anos, a endocrinologista da USP atua com inovação e pesquisa de novas moléculas para tratar a obesidade, assunto que domina profundamente, sendo capaz de descrever, como poucos nessa era de modismos, o que realmente acontece dentro das células quando o indivíduo tem excesso de adiposidade e, na contrapartida, as mudanças quando ele consegue controlar essa doença crônica. Muitas não são vistas no espelho, mas pelas lentes dos laboratórios.
A survodutida, por exemplo, já é conhecida pela médica há três anos: ela lidera, no Brasil, um outro estudo com essa medicação, o SYNCHRONIZE CVOT, que provavelmente será apresentado até o final deste ano. Ele pretende avaliar o impacto da nova molécula no combo que os médicos definem pelo adjetivo “cardiometabólico”. Ele inclui problemas cardiovasculares, como a insuficiência cardíaca, e a doença renal crônica, por exemplo.
É possível que venham surpresas positivas nessa investigação também. Até porque a doença gordurosa do fígado parece ser o fio da meada no emaranhado de todas essas encrencas. Tanto que, como lembra a doutora Cintia, pacientes com fibroses hepáticas morrem muito mais do coração do que de doenças no fígado, embora elas sejam uma ameaça.
Ao lado do GLP-1, o glucagon pode fazer a diferença
A insulina, hormônio pancreático que leva a glicose presente na circulação a entrar nas células, foi descoberta em 1921. E não demorou muito, só um aninho, para os cientistas encontrarem outro hormônio, também produzido pelo pâncreas, que teria papel oposto: ele liberaria esse açúcar na corrente sanguínea, evitando sua queda e mantendo o equilíbrio. Estou falando, claro, do glucagon.











