O decadente futebol brasileiro – a morte e o silêncio no Amazonas


O torcedor amazonense que viveu as décadas de 70, 80 e o final dos anos 90 guarda na memória um futebol pulsante, de prestígio nacional e internacional.

É impossível esquecer a lotação histórica do antigo Vivaldo Lima para o embate entre o Fast Club e o Cosmos de Nova York, de Pelé e Beckenbauer.

Ou a emblemática vitória do “Rolo Compressor” sobre o Fluminense em pleno Maracanã.

Mais recentemente, o tricampeonato da Copa Norte pelo São Raimundo colocou o Amazonas no mapa das grandes disputas.

Hoje, esse cenário de glória deu lugar a um deserto de ideias e resultados.

O futebol baré não apenas parou no tempo; ele despencou em um buraco negro de amadorismo, assistido de camarote por uma imprensa local que se mostra totalmente omissa e incapaz em analisar as causas dessa derrocada.

Clubes tradicionais como o Fast, o Rio Negro e o São Raimundo, que já foram orgulho da região, hoje sequer disputam divisões nacionais ou o próprio campeonato estadual.

Até o centenário Nacional, que ainda resiste, vive sob o comando de figuras políticas, em uma simbiose que raramente prioriza o desenvolvimento técnico.

O símbolo máximo dessa decadência é a Arena da Amazônia. Erguida ao custo de mais de bilhão de reais para a Copa do Mundo 2014, a estrutura é um monumento ao desperdício.

Sem clubes figurando com protagonismo nas divisões de elite, o estádio tornou-se um fardo financeiro.

Hoje é um cenário de luxo para o vazio, enquanto a memória de estádios lotados apodrece sob o asfalto do progresso que nunca chegou ao gramado.

Essa derrocada sem fim é alimentada por um silêncio perturbador das redações. Prefere-se o conforto da reprodução de notícias do eixo Sul-Sudeste à investigação das falhas de gestão que impediram a sustentabilidade dos nossos clubes históricos.

Não se cobra transparência, não se questiona o uso do patrimônio público e, acima de tudo, não se propõe um caminho de volta à relevância.

O divórcio entre o público e os clubes locais é a consequência de um produto mal cuidado.

O torcedor, órfão de representatividade, busca refúgio em ligas distantes, enquanto o gramado bilionário da nossa arena assiste à morte lenta de um patrimônio cultural.

Sem uma imprensa que exerça seu papel fiscalizador e sem dirigentes profissionais, a Arena da Amazônia continuará sendo apenas um mausoléu de concreto para um esporte que já foi a maior paixão deste povo.

*O autor é jornalista.

Próximo artigo: O decadente futebol brasileiro – a máfia das apostas e o jogo sujo.

Ilustração: imagem gerada por IA



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