O gás natural assumiu um protagonismo singular no Amazonas, atuando como o principal fiador da segurança energética da região e como motor de desenvolvimento do estado. Essa é uma das conclusões do estudo Gás Natural no Amazonas: Estudo Socioeconômico e Ambiental, publicado pelo Instituto de Energia da PUC-Rio.
Segundo o documento, sem o gás natural, o Amazonas enfrentaria uma matriz energética mais poluente e onerosa, além de significativas perdas na arrecadação. Outra consequência seria uma drástica paralisação no desenvolvimento social do interior do estado.
Os autores do estudo apontam que o gás natural surgiu como a solução robusta para estabilizar o cenário energético amazonense, historicamente com pontos de isolamento em relação ao sistema de transmissão do restante do país. Isso explica a dependência amazonense de derivados de petróleo, como o diesel e óleo combustível.
O Plano Nacional de Energia (PNE 2050) identifica que a região amazônica apresenta desafios significativos para a implementação de fontes de energia renováveis, especialmente em função da sensibilidade ambiental da floresta, do baixo potencial para geração eólica e a necessidade de extensas áreas para geração solar. O estudo da PUC-Rio mostra, inclusive, que para se ter a mesma garantia física de energia gerada hoje pelas termelétricas do Amazonas, seria necessário desmatar ou utilizar cerca de 118 km² para placas solares, ao passo que o gasoduto Urucu-Coari-Manaus, para efeito de comparação, impactou apenas 8 km².
A construção desse gasoduto viabilizou o abastecimento constante para a capital e para o interior. Ao contrário do óleo diesel, cuja logística complexa exige o intenso tráfego de balsas pelos rios, o fornecimento por dutos melhora a segurança e a confiabilidade do abastecimento elétrico nos sistemas isolados.
Motor de desenvolvimento regional

Funcionários da Petrobras na estrada Urucu – AM (Foto: Divulgação/ Petrobras/ Programa de Aceleração do Crescimento)
O estudo da PUC-Rio mostra ainda que a transição para o gás natural revolucionou a economia amazonense, trazendo impactos que vão muito além do setor elétrico.
A cadeia de produção, transporte e geração termelétrica a gás natural atraiu cerca de US$ 7,4 bilhões em investimentos para o estado. Somente as obras do gasoduto Urucu-Coari-Manaus empregaram mais de 26 mil pessoas no pico de sua construção.
O setor de gás é ainda uma verdadeira âncora fiscal. Em 2023, a venda comercial do gás gerou R$ 786 milhões de impostos e R$ 450 milhões em royalties para o governo estadual e municípios. Dada a queda na produção de petróleo, o gás natural tornou-se vital, representando sozinho cerca de 55% da arrecadação de royalties nos campos produtores do Amazonas desde 2016.
Os pesquisadores da PUC-Rio destacaram ainda que há um abismo de desenvolvimento entre os municípios que recebem royalties do gás e os que não recebem. As cidades beneficiadas, como Coari, Iranduba e Manacapuru, experimentaram um salto no crescimento do PIB e uma sofisticação de suas matrizes econômicas, com avanço da indústria e dos serviços.
Esse dinheiro é revertido em prol da população: esses municípios investem anualmente até R$ 16 milhões a mais na educação e 10 milhões a mais em saúde do que as cidades sem royalties. Como consequência, os municípios beneficiados dominam o topo do ranking do Índice de Progresso Social (IPS) da Amazônia.
A adoção do gás natural contribuiu significativamente para a redução do “Custo Brasil” na região. Ao evitar o uso do caro óleo diesel entre 2013 e 2024, o gás natural propiciou uma economia de R$ 75 bilhões no custo de geração de energia.
Polos de Urucu e Azulão

Gasoduto Urucu-Coari-Manaus (Foto: Ricardo Stuckert/ Programa de Aceleração do Crescimento via Flickr)
O estudo destaca dois grandes centros de produção e escoamento de gás natural na região: o Polo de Urucu e o Polo Azulão. Abaixo estão os principais dados e características de cada um deles.
Urucu
- Destino e logística: é o grande responsável pelo abastecimento de gás natural da cidade de Manaus (AM). O escoamento da produção é feito por meio do Gasoduto Urucu-Coari-Manaus, que possui 663 km de extensão.
- Momento produtivo: o polo atualmente encontra-se em uma fase madura e apresenta declínio na sua produção de petróleo.
- Volume e oferta: cerca de metade do gás natural produzido em Urucu é reinjetado. No entanto, a oferta destinada ao mercado consegue se manter estável, fornecendo um volume em torno de 6 milhões de metros cúbicos (m³) por dia.
Azulão
- Nova fronteira: é considerada a nova frente de expansão para o setor de gás natural no estado do Amazonas.
- Destino e logística: diferente de Urucu, sua produção atual não abastece o Amazonas. O gás é totalmente destinado ao abastecimento da Usina Termelétrica Jaguatirica II, localizada em Boa Vista (RR). O transporte não é por dutos, mas sim rodoviário, feito por caminhões que levam o Gás Natural Liquefeito (GNL) a granel.
- Modelo de operação: o projeto opera sob o modelo Reservoir-to-Wire (do reservatório à rede), o qual integra no mesmo complexo uma planta de liquefação de gás para facilitar o transporte até a termelétrica.
- Dados de produção: apenas no ano de 2023, o polo abasteceu 240 milhões de m³ de gás (uma média de 657 mil m³ por dia) para a usina termétrica Jaguatirica II, que possui 141 MW de potência.
- Impacto ambiental e econômico: a operação deste polo contribuiu para a redução de 36% das emissões de CO₂ e barateou em 38% os custos da geração elétrica no sistema isolado atendido.
- Perspectivas e investimentos: há um planejamento de forte expansão por meio do projeto “Azulão 950” (da Eneva), que prevê um investimento de R$ 5,8 bilhões para a construção das usinas termelétricas Azulão I e II. Juntas, elas devem somar 950 MW de potência instalada.
Vocação termelétrica
O segmento termelétrico é a grande âncora do consumo de gás natural no Amazonas. Em 2023, esse setor representou 84,5% de toda a demanda do estado, consumindo cerca de 4,4 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d).
O parque termelétrico amazonense possui um total de 148 unidades geradoras, que somam 1,86 GW de potência. Existem 18 usinas termelétricas operando a gás natural que, juntas, respondem pela maior fatia de potência do estado: 1,06 GW.
Destas, 12 termelétricas são atendidas pela concessionária local (Cigás), sendo 7 localizadas em Manaus (Cristiano Rocha, Gera, Jaraqui, Manauara, Ponte Negra, Mauá 3 e Tambaqui) e 5 no interior, ao longo do gasoduto (Anamã, Anori, Caapiranga, Coari e Codajás).
Apesar desse avanço, ainda há margem para substituição, pois o estado possui 122 usinas operando a diesel (614 MW) e 3 a óleo combustível (184 MW).
Ambientalmente, o impacto também é grande. A transição dos combustíveis líquidos para o gás natural trouxe uma descarbonização substancial e melhorou a qualidade do ar: entre 2013 e 2024, a geração termelétrica a gás natural emitiu 70 milhões de toneladas de CO₂. Se essa mesma energia tivesse sido gerada por óleo diesel, as emissões teriam chegado a 112 milhões de toneladas. Isso significa um volume de 41 milhões de toneladas de CO₂ evitadas no período.
Somente no ano de 2023, o uso do gás evitou o lançamento de 4,41 milhões de toneladas de CO₂, o que representa uma redução de 37% frente ao cenário de geração a diesel.
A substituição de combustíveis líquidos em Manaus provocou uma queda de 73% na poluição causada por materiais particulados.
A viabilidade econômica do gás natural frente ao caro e complexo fornecimento de diesel é um dos pontos mais expressivos do estudo, como a já citada economia de R$ 75 bilhões entre 2013 e 2024 no custo da geração. Se o parque fosse 100% movido a óleo diesel, esse valor teria disparado para 120 bilhões.
Outro ganho aconteceu na redução de subsídios: o uso do gás natural reduziu os gastos da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) em cerca de R$ 7 bilhões.
Expansão do Gasoduto Coari-Manaus para melhorar a distribuição de gás
As licenças ambientais para a ampliação do ponto de saída (PS) Buriti, infraestrutura vinculada ao gasoduto Coari-Manaus foram liberadas em 2025. O projeto tem como objetivo aumentar a distribuição de gás natural para a Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) e atender à Usina Termelétrica Manaus I, que está em fase de instalação.
O PS Buriti é uma extensão do gasoduto Coari-Manaus, operado pela TAG. Com a ampliação, a estrutura poderá fornecer até 820.500 metros cúbicos de gás natural por dia para a usina termelétrica Manaus I e até 2.200.000 metros cúbicos por dia para a Cigás, garantindo maior capacidade de distribuição e suporte em possíveis emergências.













