Por que sentimos mais cansaço no inverno?


Quando a temperatura cai, o ar frio fica mais denso e pesado, algumas árvores começam a perder as folhas e muitos animais procuram abrigo ou entram em estados de hibernação e torpor. O ser humano faz parte da natureza, claro, e, como qualquer outro ser vivo, também sente os efeitos dessa mudança. Entre eles, estão o cansaço e o desânimo, que parecem se tornar mais frequentes nesta época do ano.

E isso não é apenas impressão: é biologia pura. Quando somos expostos a baixas temperaturas, o organismo desencadeia uma série de mecanismos para manter o calor corporal, segundo Adriano Senter Magajevski, cardiologista do Hospital Sugisawa, em Curitiba (PR) — cidade que, inclusive, registrou -0,3°C em junho. 

“O corpo lança mão de mecanismos para manter a temperatura corporal, seja através de vasoconstrição (o vaso reduz de calibre para evitar a irradiação do calor), assim como aumento do tônus muscular (contração leve e contínua dos músculos)”, explica Magajevski.

Essa vasoconstrição reduz o fluxo sanguíneo para a pele e as extremidades, ajudando a preservar o calor corporal. Como consequência, algumas pessoas podem sentir maior desconforto físico, rigidez muscular e sensação de frio.

Além disso, segundo o médico, ocorre uma ativação do sistema simpático, a parte do sistema nervoso autônomo responsável por controlar funções do corpo que acontecem automaticamente, como os batimentos cardíacos, a respiração, a pressão arterial e a digestão.

“Isso leva a um maior consumo de oxigênio por parte dos órgãos e principalmente do coração, com aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial — algo parecido com o que ocorre durante os jogos do Brasil ”, explica. 

O resultado de todo esse processo é que o corpo sente mais cansaço.

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Menos luz, mais sono e menos disposição

Há outro fator importante que ajuda a explicar a fadiga nos dias frios: durante o inverno, os dias ficam mais curtos e as noites mais longas. Isso ocorre porque a inclinação da Terra nesse período faz com que o Sol nasça mais tarde e se ponha mais cedo no Hemisfério Sul, onde o Brasil está localizado. 

Toda essa mudança altera a produção de neurotransmissores (mensageiros químicos dos neurônios) e hormônios (mensageiros do sistema endócrino).

A menor exposição à luz solar reduz a produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao bem-estar, e pode aumentar a produção de melatonina, hormônio que regula o sono. Essa combinação favorece a sensação de cansaço, sonolência e desânimo”, explica Thaís Pacheco, bióloga, mestre em biologia celular e molecular e professora do UniCuritiba.

 

Inverno também sobrecarrega o sistema imunológico

Além da fisiologia e das alterações hormonais, os casos infecções respiratórias aumentam no inverno. Quando o organismo combate vírus e bactérias, o sistema imunológico passa a consumir mais energia, o que também contribui para a sensação de cansaço e fadiga.

Mas aqui vale um alerta: não é o frio, por si só, que provoca essas doenças. A alta dos casos está relacionada a uma combinação de alterações no organismo, mudanças de comportamento e características dos próprios agentes infecciosos.

“O frio favorece alterações imunológicas e fisiológicas que tornam o organismo mais suscetível. A inalação de ar frio provoca uma vasoconstrição na mucosa respiratória, o que reduz a chegada de células de defesa à porta de entrada desses patógenos. Paralelamente, a exposição ao ar frio e seco compromete a função do sistema mucociliar (mecanismo de defesa do aparelho respiratório), diminuindo sua eficácia na proteção das vias aéreas”, explica Luiz Felipe Natel Kugler Mendes, pneumologista do Hospital VITA, em Curitiba. 

Segundo Mendes, estudos sugerem ainda que a queda na temperatura pode atenuar a resposta imunológica local diante da presença de microrganismos, especialmente vírus. Além disso, alguns vírus respiratórios — como os da influenza e o vírus sincicial respiratório (VSR) — apresentam maior taxa de sobrevivência e transmissibilidade em climas frios.

Existe ainda a questão do comportamento. No frio, as pessoas também tendem a permanecer por mais tempo em ambientes fechados, pouco ventilados e com maior aglomeração, como transportes públicos, escolas e escritórios. Esse cenário facilita a transmissão de vírus respiratórios, aumentando o número de infecções e, consequentemente, o trabalho do sistema imunológico e o cansaço.

“A fadiga é causada, principalmente, pela intensa resposta inflamatória do organismo, que consome grande parte da energia corporal para produzir células de defesa, levando à prostração (muita fraqueza) e astenia (sensação de falta de força ou energia). Paralelamente, o impacto direto do agente infeccioso nas vias aéreas pode comprometer a função pulmonar, reduzindo a oxigenação do sangue e potencializando o cansaço”, completa Mendes.

Veja também: Mito ou verdade: ficamos mais doentes quando esfria?

 

Quem sente mais os efeitos do frio?

Segundo os especialistas, crianças e idosos tendem a sentir mais os efeitos do frio. Nas crianças, isso acontece porque elas têm menor massa corporal e um sistema de termorregulação ainda em desenvolvimento. Já nos idosos, os mecanismos de controle da temperatura corporal estão menos eficientes com o envelhecimento, favorecendo o cansaço.

Pessoas com doenças crônicas também podem sentir um impacto maior, como aquelas com diabetes e hipertensão arterial, pois costumam ter menor capacidade de adaptação às mudanças fisiológicas provocadas pelo frio.

Há ainda outro grupo que merece atenção: pessoas que já apresentam transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e transtorno afetivo sazonal (TAS), um tipo de depressão desencadeado pelas mudanças na exposição à luz ao longo das estações do ano. A menor exposição solar está associada ao aumento dos sintomas depressivos, que podem contribuir para a sensação de fadiga.

 

Quando o cansaço deixa de ser normal

O cansaço normal em dias frios geralmente é leve, melhora com repouso, não interfere significativamente nas atividades diárias e está relacionado à resposta fisiológica ao frio.

“Sinais de alerta cardiovascular incluem fadiga desproporcional ao esforço, fadiga que piora progressivamente, fadiga acompanhada de dispneia, edema de tornozelos, dor torácica, palpitações ou sintomas que persistem mesmo em repouso”, explica Magajevski.

Nesse caso, a recomendação é procurar avaliação médica.

Mendes vai na mesma linha, e orienta que mesmo pessoas saudáveis, sem comorbidades graves, devem ficar atentas à intensidade dos sintomas. Segundo ele, quando uma infecção provoca um estado de prostração muito intenso, com cansaço acima do habitual ou um mal-estar muito diferente daquele experimentado em episódios gripais anteriores, o ideal é buscar atendimento.

“É muito difícil que o indivíduo, isoladamente, consiga se autodiagnosticar. Isso é desaconselhável. Então, ele deve procurar atendimento médico sempre que a gravidade do quadro estiver comprometendo muito a sua autonomia física e respiratória principalmente”, afirma o pneumologista. 

 

Como reduzir os efeitos do frio no dia a dia

As recomendações são aproveitar a luz natural durante o dia, praticar atividades físicas, manter uma alimentação equilibrada, priorizar um sono de qualidade e manter uma boa hidratação, já que no frio muitas pessoas bebem menos água. “Esses hábitos ajudam a preservar a disposição e o equilíbrio do organismo durante o inverno”, destaca Pacheco.

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