A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) fez uma uma manifestação pública em apoio às lideranças do povo Baré da região do alto e médio rio Negro.
Eles denunciam o uso indevido da identidade indígena por grupos do município de Barcelos, no Amazonas, autodeclarados “Baré Mestiço”.
A denúncia foi formalizada por meio de uma nota pública assinada por lideranças representadas pela Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN) e pela Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié (CAIBARNX), ambas vinculadas à Foirn.
Segundo o documento, o termo “Baré Mestiço” não existe, não é reconhecido e não possui legitimidade dentro da organização tradicional do povo Baré.
As lideranças afirmam que o uso da nomenclatura estaria sendo empregado de má-fé para sustentar pautas contrárias à demarcação e proteção dos territórios indígenas.
“O povo Baré possui uma história de origem, cultura e uma trajetória inegável de resistência. Não aceitaremos que o nome sagrado do povo Baré seja instrumentalizado para legitimar pautas externas, enfraquecer os direitos indígenas e ameaçar nossos territórios”, diz a nota das associações indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN, CAIBARNX ) e Foirn.
Movimento em Barcelos
O termo “Baré Mestiço” aparece principalmente em contextos de conflito de identidade e disputas territoriais no município de Barcelos, Amazonas.
Diferentemente do povo indígena Baré, etnia reconhecida e histórica, o movimento autodenominado “Baré Mestiço” é alvo de fortes críticas por parte de lideranças indígenas tradicionais.
O que se sabe, segundo relatos compartilhados por organizações indígenas da região, é que o movimento ganhou repercussão recente em Barcelos em meio às discussões sobre identidade étnica, territorialidade e demarcação de terras indígenas no Médio Rio Negro.
Na avaliação das lideranças tradicionais Baré e da Foirn, a adoção da expressão “Baré Mestiço” estaria sendo usada para relativizar a identidade indígena originária e enfraquecer reivindicações históricas dos povos do Rio Negro.
O BNC também procurou líderes do movimento “Baré Mestiço”, em Barcelos, mas não localizou nenhuma liderança para se pronunciar a respeito da denúncia constante da nota pública das entidades indígenas do Rio Negro.
Contexto histórico
O povo Baré é um dos povos indígenas tradicionais do Rio Negro e possui presença histórica em municípios como Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira.
Ao longo dos séculos, enfrentou processos de colonização, exploração econômica e miscigenação forçada durante a ocupação da Amazônia.
Mesmo diante desse processo histórico, as organizações indígenas sustentam que a identidade Baré permanece viva, ligada à ancestralidade, ao território, à memória coletiva e às formas próprias de organização social.
“Existe o povo Baré pertencente ao tronco linguístico Aruak assim como os Tariano, Werekena, Koripaco, Baniwa e Lanawa do Rio Negro. Baré mestiço é uma invenção, que viola e discrimina o povo que mais resistiu para continuar existindo e lutando pelo seus direitos”, afirma um dos líders do povo Baré, Marivelton Barroso.
Demarcação já!
Na manifestação divulgada pelas lideranças Baré, o grupo afirma que continuará “inabalável” na defesa da identidade indígena e dos territórios tradicionais.
A nota também relaciona o surgimento do movimento “Baré Mestiço” a interesses de invasores e de grupos contrários à demarcação de terras indígenas.
“Nossa resistência sempre foi e continuará sendo pela vida, pelo território e pela existência digna dos nossos povos”, conclui o documento.
Leia a íntegra da nota pública
“Nós, lideranças do povo Baré da região do Alto Rio Negro e Médio Rio Negro, vimos por meio desta manifestar nosso repúdio às atitudes e posicionamentos de grupos que se autodeclararam ‘Baré Mestiço’, no município de Barcelos-AM, e que vêm utilizando o nome do povo Baré intitulando ‘Baré Mestiço’, o qual não existe, não reconhecemos e nem legitimamos esse termo.
Usado de má-fé para apoiar interesses contrários à luta histórica dos povos indígenas e à defesa de nossos territórios tradicionais.
O povo Baré possui uma história de origem, cultura e uma trajetória inegável de resistência. Somos povos indígenas do Rio Negro e, ao longo de gerações, nossos ancestrais enfrentaram invasões, violências e inúmeras formas de exploração.
Portanto, entendemos que as atitudes desse referido movimento alinham-se aos interesses de grupos invasores e opositores da demarcação e proteção das terras indígenas.
Não aceitaremos que o nome sagrado do povo Baré seja instrumentalizado para legitimar pautas externas, enfraquecer os direitos indígenas e ameaçar nossos territórios.
Seguiremos inabaláveis na defesa de nossos direitos, de nossa identidade e de nossos territórios tradicionais. Nossa resistência sempre foi e continuará sendo pela vida, pelo território e pela existência digna dos nossos povos. DEMARCAÇÃO JÁ!”
Foto: divulgação











