A recém-eleita diretora da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) no Amazonas, Helane Souza, afirma que o estado reúne condições para se tornar uma referência nacional na integração entre energia solar e sistemas de armazenamento, mas avalia que esse potencial continuará subaproveitado enquanto persistirem entraves como a dependência do diesel nos sistemas isolados, os elevados custos logísticos e a falta de um ambiente regulatório capaz de estimular novos investimentos.
Para ela, “a energia solar associada às baterias” representa uma alternativa estratégica para ampliar a segurança do abastecimento e acelerar a descarbonização da região.
Em entrevista exclusiva ao Canal Solar, Helane também sustenta que o primeiro leilão federal de armazenamento em baterias marca o reconhecimento de que esses sistemas passaram a ser uma infraestrutura essencial para garantir flexibilidade e confiabilidade ao setor elétrico.
Embora o certame tenha foco no SIN (Sistema Interligado Nacional), ela acredita que seus desdobramentos poderão impulsionar uma cadeia produtiva nacional capaz de beneficiar o Polo Industrial de Manaus, além de abrir caminho para novos investimentos em soluções voltadas aos sistemas isolados da Região Norte.
Primeira mulher a comandar a representação da ABSOLAR no Amazonas, Helane defende que a expansão das energias renováveis na região deve ser tratada como uma política de desenvolvimento, combinando preservação ambiental, segurança jurídica e fortalecimento da indústria local.
Na avaliação da executiva, a floresta “não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas o maior ativo” do estado, e a energia limpa pode transformar a realidade de comunidades amazônicas sem abrir mão da conservação ambiental.
Você assume a diretoria da ABSOLAR no Amazonas com o desafio explícito de acelerar a descarbonização em um estado ainda muito dependente de combustíveis fósseis. Quais são as principais barreiras estruturais e logísticas que o Amazonas enfrenta hoje para converter o enorme potencial solar em realidade de larga escala?
O Amazonas reúne algumas das melhores condições para demonstrar como a energia solar e os sistemas de armazenamento podem transformar a realidade energética de comunidades e regiões isoladas.
Ao mesmo tempo, enfrenta desafios muito particulares. Temos uma grande dispersão geográfica da população, comunidades de difícil acesso, elevados custos logísticos e uma forte dependência de geradores e usinas movidas a óleo diesel nos sistemas isolados, o que torna o fornecimento de energia mais caro, mais poluente e mais vulnerável.
Para avançar na descarbonização da região, é fundamental ampliar o planejamento da infraestrutura elétrica e criar um ambiente regulatório e de investimentos que estimule projetos de geração solar associados ao armazenamento em baterias.
Essa combinação é especialmente estratégica para o Amazonas, pois permite aumentar a segurança do abastecimento, reduzir o consumo de combustíveis fósseis e oferecer energia de melhor qualidade para a população e para as atividades produtivas.
Nosso papel na ABSOLAR será fortalecer o diálogo entre setor produtivo, governos e sociedade para acelerar essa transição, transformando o enorme potencial solar do estado em desenvolvimento econômico, geração de empregos e descarbonização.
Diante da dimensão territorial do Amazonas, quais políticas públicas locais você pretende priorizar junto ao governo estadual e municípios para fazer esse número crescer de forma mais acelerada?
O Amazonas já possui cerca de 323 MW de geração própria solar instalada, distribuídos em mais de 17,8 mil sistemas fotovoltaicos, mas esse potencial ainda está muito distante do que o estado pode alcançar.
Nossa prioridade será apoiar políticas públicas que ampliem a adoção da energia solar e das baterias tanto em regiões já conectadas ao SIN para que se tornem menos dependentes da transferência de energia produzida em outras regiões, quanto nos sistemas e comunidades isoladas, trazendo maior confiabilidade no abastecimento e redução no custo de aquisição do Diesel, fundamental para os atuais geradores.
Isso inclui incentivar projetos solares e de armazenamento de energia elétrica em prédios públicos, escolas, hospitais, sistemas de saneamento e iluminação pública, além de estimular linhas de financiamento para consumidores, produtores rurais e empresas. Também será fundamental fortalecer a capacitação profissional, estimular novos investimentos privados e ampliar a segurança jurídica para quem deseja investir no setor.
O governo federal marcou para dezembro deste ano o primeiro LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade focado em Armazenamento). Como você avalia a atratividade das regras deste certame para atrair investimentos em sistemas de armazenamento em baterias (BESS) especificamente para o ecossistema do Amazonas?
A realização do primeiro LRCAP voltado ao armazenamento representa um marco histórico para o setor elétrico brasileiro. É um reconhecimento de que os sistemas de armazenamento passaram a ser uma infraestrutura essencial para garantir flexibilidade, confiabilidade e segurança ao sistema elétrico nacional.
A ABSOLAR considera positivo que o leilão estabeleça contratos de longo prazo, trazendo redução de custos à sociedade e maior previsibilidade aos investidores. Ao mesmo tempo, entendemos que ainda existem aperfeiçoamentos regulatórios importantes para permitir o pleno desenvolvimento do mercado brasileiro de armazenamento, especialmente no aproveitamento de todas as funcionalidades que as baterias podem oferecer ao sistema elétrico.
Vale ressaltar que o LRCAP focado em Armazenamento tem objetivo de prover reserva de potência ao Sistema Interligado Nacional, importante para a estabilidade do Sistema elétrico, principalmente em regiões onde há maior desequilíbrio na relação geração/demanda.
É o caso da interligação entre o subsistema Nordeste onde há grande geração de energia solar, e o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, onde há grande demanda por energia elétrica. Esta interligação já apresenta limitações na capacidade de escoamento de energia, o que faz com que parques geradores inteiros tenham sua geração impedida em diversos momentos.
O leilão favorece projetos localizados em determinados pontos da rede elétrica onde são mais necessários, por meio de um fator de bonificação na avaliação dos lances do leilão. Estes pontos foram apresentados pela Portaria Normativa MME nº 136/2026 e contemplam pontos nos Estados de AL, BA, CE, MG, PB, PE, PI e RN.
Para o Amazonas, os Leilões de Sistemas Isolados representam uma oportunidade maior, pela necessidade de se reduzir gradualmente a dependência do diesel. Esperamos que esse movimento inaugure um ciclo de novos investimentos e de desenvolvimento tecnológico também na Região Norte.
O leilão de dezembro traz exigências técnicas rigorosas, como o funcionamento de baterias que atuem de forma autônoma (formadores de rede). Considerando as peculiaridades dos Sistemas Isolados e da rede elétrica no Amazonas, os empreendedores locais estão preparados para cumprir esses requisitos de alta performance?
O objetivo do leilão é prover reserva de potência ao SIN, não sendo objeto deste leilão os Sistemas Isolados. Isto não quer dizer que o leilão deixe de trazer oportunidades para a região, que pode ser essencial no fornecimento de equipamentos para estes projetos, visto que parte do leilão será direcionado para soluções baseadas estritamente em equipamentos nacionais, e dada a grande competitividade da Zona Franca de Manaus entre os polos produtivos nacionais.
A portaria do leilão dividiu o certame em dois produtos, prevendo inclusive critérios de conteúdo local exigidos pelo BNDES em um deles. A cadeia de suprimentos no Amazonas tem condições de absorver essa demanda tecnológica de armazenamento a curto prazo, ou ainda dependemos fortemente de importações?
O desenvolvimento de uma cadeia nacional de armazenamento será um processo gradual. Hoje, parte importante dos equipamentos e componentes ainda é importada, como acontece em diversos segmentos da transição energética.
Por outro lado, a exigência de conteúdo local pode funcionar como um importante estímulo para a industrialização brasileira, atraindo fabricantes, ampliando investimentos e fortalecendo fornecedores nacionais ao longo dos próximos anos.
No caso do Amazonas, existe um diferencial competitivo importante representado pelo Polo Industrial de Manaus, que possui tradição na fabricação de equipamentos eletroeletrônicos e reúne condições para participar dessa nova cadeia produtiva.
Com previsibilidade regulatória, escala de mercado e políticas adequadas de incentivo, o estado pode se tornar um dos protagonistas nacionais na produção e integração de tecnologias voltadas ao armazenamento de energia.
A expectativa da ABSOLAR é que o LRCAP seja apenas o primeiro passo para consolidar um mercado permanente de armazenamento no Brasil, capaz de estimular investimentos, inovação, geração de empregos qualificados e maior competitividade para toda a cadeia produtiva.
Você nasceu em Novo Airão, no coração das Anavilhanas, e foi uma das pioneiras no mercado de energia solar no Amazonas. Como a sua vivência conectada às raízes amazônicas e sua especialização em regulação e direito de energia formatam a sua visão sobre equilibrar a preservação da floresta com o progresso econômico por meio das renováveis?
Nascer no coração do Arquipélago me ensinou desde cedo que as nossas florestas não são um obstáculo ao desenvolvimento, mas sim nosso maior ativo. Como pioneira na região minha visão sempre foi gerar energia sem destruir o nosso ecossistema. Destaco que a ampliação das energias renováveis no Amazonas vai além da energia limpa, para muitas famílias e comunidades são sinônimos de dignidade e acesso à informação.
Todavia para que os investimentos em renováveis cheguem no Amazonas de forma estruturada, protegendo as nossas florestas é necessário segurança jurídica e regulatória. Com segurança jurídica e regulatória e energia renovável se torna ponte entre o desenvolvimento e a preservação.
Que mensagem você deixa para as mulheres que desejam ocupar cargos de liderança no setor de energia limpa e armazenamento, um segmento historicamente dominado por homens?
Todo desafio exige resiliência, e nós mulheres podemos agregar muito nesse setor com a nossa visão de longo prazo e atenção aos detalhes. Acredito no nosso potencial, e que a qualificação adequada nos oportunizarão cada vez mais sentarmos à mesa dos tomadores de decisão, até lá é importante a união através de redes de apoio como as associações do setor para compartilharmos ideias e lutarmos por um setor de energia justo e equilibrado para todos.
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