O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) começará, em agosto, a contratação dos serviços de dragagem dos principais trechos hidroviários do Amazonas. Será uma tentativa de reduzir os impactos da estiagem que pode atingir a região nos próximos meses com a previsão de um novo Super El Niño.
A medida contempla os trechos Manaus–Itacoatiara, Benjamin Constant–Tabatinga, Benjamin Constant–São Paulo de Olivença e Coari–Codajás, considerados estratégicos para o abastecimento das cidades amazônicas e para a logística do polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM)
Segundo o Dnit, os serviços fazem parte de um contrato com duração de cinco anos voltado à manutenção da infraestrutura hidroviária da Amazônia, permitindo intervenções permanentes nos principais corredores fluviais da região.
O anúncio ocorre em um momento de preocupação crescente entre empresas de navegação, operadores portuários e a indústria amazonense. A previsão climática indica alta probabilidade de formação de um Super El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027, fenômeno que pode provocar uma nova seca severa nos rios amazônicos.
O receio é que a região enfrente uma situação semelhante à registrada em 2023, quando a vazante histórica levou os rios aos menores níveis em mais de um século. Na ocasião, navios de grande porte deixaram de chegar ao porto de Manaus, obrigando a transferência das cargas em Itacoatiara para balsas menores, o que elevou custos e atrasou o abastecimento.
Levantamento do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) estima que somente em 2023 os prejuízos logísticos provocados pela estiagem alcançaram cerca de R$ 1,4 bilhão.
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Setor cobra mais investimentos
Apesar da confirmação da dragagem, representantes do setor portuário defendem uma política mais robusta de investimentos em hidrovias.
O presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Jesualdo Silva, avalia que a chegada do Super El Niño exige planejamento permanente por parte da União.
Segundo ele, a navegação fluvial é o modal mais eficiente e sustentável para a Amazônia, mas depende de dragagens regulares para manter a navegabilidade durante todo o ano.
A crítica ocorre no momento em que o governo federal também estrutura uma Parceria Público-Privada (PPP) estimada em R$ 9,7 bilhões para a BR-319, enquanto os investimentos destinados às hidrovias permanecem significativamente menores.
Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que, entre janeiro e abril deste ano, o governo federal investiu R$ 3,2 bilhões em rodovias, contra apenas R$ 87,2 milhões no modal aquaviário.
O cenário também foi alvo de análise do Tribunal de Contas da União (TCU), que concluiu recentemente que a política nacional para o transporte hidroviário ainda apresenta “imaturidade institucional”.
Conforme o tribunal, dos cerca de 50 empreendimentos previstos para o setor na última década, apenas três foram concluídos.
Para o Amazonas, onde os rios são as principais vias de integração entre municípios e sustentam grande parte da logística da ZFM, o início das dragagens é visto como uma medida estratégica para minimizar os efeitos de uma nova estiagem extrema, embora o setor produtivo defenda investimentos permanentes e em maior escala para garantir a segurança da navegação na região.
Foto: divulgação/Ministério da Infraestrutura













