
Pacientes que apresentam formas mais complexas da doença de Parkinson ganharam mais uma alternativa terapêutica no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Vyalev (foslevodopa/foscarbidopa hidratada), medicamento do laboratório AbbVie que promete devolver a qualidade de vida a quem convive com a doença, proporcionando maior controle dos sintomas.
O diferencial do novo fármaco está, principalmente, em sua forma de administração, por meio de uma bomba de infusão subcutânea que deverá ser utilizada 24 horas por dia.
O equipamento — que leva em seu interior uma seringa que bombeia o remédio — tem aproximadamente o tamanho de dois celulares empilhados e pode ser carregado em uma bolsa pequena ou acoplado à roupa. Ele fica conectado ao corpo por meio de uma cânula subcutânea.
Assim, diferentemente do que ocorre nos tratamentos mais comuns para a doença — comprimidos de levodopa tomados por via oral —, o Vyalev será liberado diretamente no tecido subcutâneo e de forma contínua, mantendo os níveis de medicação estabilizados conforme a dosagem necessitada pelo paciente.
Quais são os sintomas do Parkinson?
Doença neurológica crônica e progressiva, o Parkinson ocorre pela degeneração de neurônios responsáveis por produzir dopamina, um neurotransmissor fundamental para o controle dos movimentos corporais.
A redução dessa substância provoca sintomas como tremores, lentidão dos movimentos, rigidez muscular e alterações posturais, além de manifestações não motoras como distúrbios do sono e atrasos cognitivos. A doença pode trazer um grande prejuízo à qualidade de vida dos indivíduos diagnosticados, e os sintomas tendem a piorar com o passar dos anos.
Por isso, a notícia da aprovação do novo medicamento foi recebida com entusiasmo por especialistas que acompanham pacientes com Parkinson, sobretudo por oferecer uma alternativa não cirúrgica eficaz para tratar um dos principais desafios relacionado à progressão da doença: as flutuações motoras.

Carlos Rieder, neurologista da Santa Casa, professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e presidente do Brain Congress, que ocorre nesta semana na Capital, explica que tais flutuações são variações no aparecimento dos sintomas motores da doença — que ora estão controlados, ora saem de controle, sem que seja possível prever.
— O paciente alterna períodos em que está bem com momentos em que o efeito da medicação passa, causando travamento e lentidão. Há essa flutuação que chamamos também de “on”, quando o remédio está fazendo efeito e os sintomas estão controlado; e “off”, quando o efeito passa e os sintomas voltam — afirma o médico.
Como o Vyalev substitui os comprimidos e evita o “travamento”
A levodopa, principal terapia oral para o tratamento do Parkinson, é convertida em dopamina no cérebro, controlando de forma eficaz os os sintomas motores. Porém, conforme a doença progride, o período de ação do remédio se torna cada vez mais curto.
Segundo Sheila Trentin, neurologista do Hospital São Lucas da PUCRS e palestrante no Brain Congress, o efeito da levodopa oral pode ser de apenas duas ou três horas em quem já convive com a doença há mais tempo, exigindo doses frequentes ao longo do dia.
Isso, conforme a médica, impõe desafios à rotina dos pacientes, até mesmo porque o remédio precisa ser tomado de estômago vazio — de 30 a 45 minutos antes das refeições ou, pelo menos, uma hora depois. Há pacientes que precisam tomar comprimidos a cada duas horas e, ainda assim, enfrentam eventualmente períodos de bloqueio motor.
Imagine você estar levando a sua vida normalmente e, de repente, o remédio parar de fazer efeito e você não conseguir mais caminhar. Aí, para tudo o que está fazendo e espera o próximo comprimido fazer efeito. É complicado
SHEILA TRENTIN
neurologista do Hospital São Lucas da PUCRS
É justamente esse tipo de situação que o novo medicamento aprovado pela Anvisa promete reduzir. Com a infusão contínua, o paciente terá maior estabilidade nos níveis de dopamina e, consequentemente, menos momentos “off” e mais momentos “on”.
Conforme o laborarótio AbbVie, enquanto a foslevodopa aumenta a disponibilidade de dopamina, a foscarbidopa potencializa seu efeito. Assim, o Vyalev será capaz de evitar as oscilações observadas com os comprimidos e tornar o tratamento mais efetivo.
— Enquanto os melhores comprimidos do mercado costumam aumentar o tempo “on” em cerca de duas horas por dia, em relação aos tradicionais, essa nova terapia pode acrescentar entre quatro e cinco horas de autonomia. O maior ganho será em qualidade de vida — comenta Sheila Trentin.
Alternativa à cirurgia
O neurologista Carlos Rieder compara os resultados esperados do remédio aos obtidos com a estimulação cerebral profunda, conhecida como cirurgia de DBS (Deep Brain Stimulation), uma das principais alternativas para Parkinson avançado.
O procedimento consiste na implantação de eletrodos em áreas específicas do cérebro, com o objetivo de bloquear sinais cerebrais anômalos que causam distúrbios neurológicos, incluindo os sintomas motores do Parkinson.
Conforme o médico, o benefício do novo medicamento é semelhante da cirurgia, com o diferencial de não submeter os pacientes aos riscos naturalmente envolvidos em um procedimento cirúrgico.
— Nem todos os pacientes desejam passar por uma cirurgia cerebral. Alguns, por contraindicação, nem podem realizar o procedimento. A bomba de infusão torna-se uma alternativa importante para esses casos — afirma.
Quem poderá usar o medicamento
O neurologista esclarece que nem todos os pacientes precisarão migrar para o novo tratamento.
— Quem está bem controlado com a medicação oral não tem motivo para trocar. O perfil ideal é aquele paciente que sente os benefícios da levodopa, mas sofre porque o efeito dura pouco — explica Rieder.
O tratamento com Vyalev não foi desenvolvido para pacientes em estágios iniciais da doença, explica o médico. Nesses casos, a levodopa por via oral continua sendo o padrão ouro no tratamento.
O medicamento também não é destinado a pacientes com grau muito elevado de comprometimento. Embora a indicação aprovada pela Anvisa seja para casos classificados como “Parkinson avançado”, o termo diz respeito à presença das flutuações — que está relacionada à progressão da doença, mas não significa perda total da autonomia.
— O público-alvo é justamente quem tem vida ativa. O objetivo é evitar que se chegue a um estágio de incapacidade, mantendo os sintomas motores controlados para preservar a atividade do indivíduo — afirma Rieder.
A neurologista Sheila Trentin lembra que pacientes com demência ou comprometimento cognitivo significativo não são candidatos à nova terapia.
— A dopamina pode favorecer alucinações e agitação nesses casos. Por isso, é preciso uma seleção cuidadosa dos pacientes — afirma.
Quando estará disponível no Brasil
A aprovação da Anvisa representa apenas uma das etapas para a chegada efetiva do Vyalev ao mercado brasileiro.
O próximo passo será a avaliação de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Somente após essa etapa o produto poderá ser comercializado.
A expectativa do laboratório AbbVie é que o processo seja concluído nos próximos meses, com a venda iniciando até o fim de 2026. Os médicos alertam que a administração precisará ser orientada.
Não será simplesmente comprar o medicamento na farmácia e começar a usar. O paciente e o cuidador precisarão aprender a manusear o equipamento.
CARLOS RIEDER
neurologista, professor e presidente do Brain Congress
É preciso que o paciente ou quem o assiste aprenda a colocar a medicação na bomba, trocar a cânula e ter cuidados de higiene para evitar infecções.
O sistema permite ainda ajustes individualizados da dose ao longo do dia, incluindo programações diferentes — com dosagens mais baixas para os períodos noturnos, por exemplo. Porém, como observa Sheila Trentin, tudo isso deverá ser acompanhado pelo médico.
— Em muitos casos, será necessário um período de internação ou hospital-dia para treinamento do manuseio, ajuste das doses e observação de possíveis reações — diz.
O Vyalev já foi aprovado em mais de 35 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido e Japão. De acordo com o laboratório AbbVie, mais de 4,2 mil pacientes já iniciaram tratamento com o fármaco.













