Os cinco recolhem as malas, se despedem e tocam o barco. No dia seguinte, pegariam um avião de Laredo para o Estado de Michigan, onde passarão entre quatro e seis meses trabalhando em uma propriedade rural. “Em oito ou nove meses, consigo tirar uns 30 mil dólares”, me havia contado o Gil. “Vale à pena, é dinheiro para comprar nossa casinha, comprar um carro novo… Mas antes era mais tranquilo ir para os Estados Unidos, agora já não está tão legal”.
Ele se refere ao endurecimento das leis e da fiscalização para cima de imigrantes, uma política colocada em prática no segundo mandato de Donald Trump. “Nós todos entramos aqui como legais, temos os documentos, mas conheço gente que já foi mandada embora para casa pelo ICE, de volta para o México”.
A história dos cinco amigos que chegaram à fronteira de Laredo de ônibus, o mesmo trajeto que fiz (saindo de Monterrey), se confunde com a de outras milhares de pessoas que passam de um país a outro diariamente. Como Samanta Mendoza, que vive em Nuevo Laredo, do lado mexicano, e trabalha em uma loja de celulares em Laredo, do lado americano. Somadas, “las dos Laredos” têm uma população de aproximadamente 800 mil pessoas, 500 mil do lado do México.
“É muito cansativo. Eu cruzo a ponte umas 5 da manhã, porque se chegar aqui às 6 já sou obrigada a esperar uma hora, às vezes duas horas para passar. É quando junta a turma que trabalha, estudantes, enfim, muita gente”, explica Samanta. São quatro pontes em que passam carros e uma para trens por cima do Rio Bravo, que separa o Texas do México. No século 19, colonos declararam a independência do Texas, as forças centrais mexicanas atacaram e isso resultou em uma guerra com os EUA – o México perdeu não só o Texas, que virou o 28o Estado americano, mas também um pedaço de terra ao norte tão grande que hoje oito outros Estados dos EUA ocupam a área.
“A gente já até conhece os agentes da fronteira, mas todos os dias eles fazem as mesmas perguntas. Onde vai, motivo, etc, etc. Ficou tão ruim cruzar que muitos negócios fecharam em Laredo, piorou a economia. Muita gente resolveu ficar em Nuevo Laredo e comprar produtos nas lojas chinesas do lado de lá”, me contou Samanta. Já o José, cubano, motorista de aplicativo, pastor nas horas vagas e declaradamente Trumpista, diz que “há controvérsias”. “Tem amigos caminhoneiros que falam que as coisas estão piorando, tem outros que falam que estão melhorando”.
De uma maneira ou outra, o que é fato é que entrar nos Estados Unidos por terra é uma experiência muito diferente da imigração feita em aeroportos. Ao chegar de ônibus, após uma viagem de três horas entre Monterrey e a fronteira, nós escapamos das enormes filas de carros. Em compensação, o ônibus só é liberado a seguir viagem quando todos os passageiros passam da imigração. Se houver problema com um, como houve com Manuel, todo mundo tem que esperar. O processo todo, da chegada à fronteira até o ônibus seguir viagem a Dallas, demorou mais de uma hora. Eram somente 27 passageiros e não havia fila.













