Lembrei do dia sem pressa (festival de democratização do acesso ao bem-estar, à saúde mental e ao cuidado, que realizamos anualmente do Instituto Desacelera) uma senhora me chamou ao final das atividades para me agradecer e disse que nunca havia recebido uma massagem nos pés. “Eu aprendi hoje que meu corpo consegue relaxar”, ela me disse, segurando minhas mãos.
Pensei em como é naturalizada a exaustão materna. Em como passamos a falar mais disso, a dar mais visibilidade para este assunto, a ter debates sobre políticas públicas que tratam disso, mas ainda não é suficiente.
Pesquisas recentes indicam que mães brasileiras estão esgotadas, tristes e sobrecarregadas. A depressão pós-parto parece ser um tema que gera mais atenção e cuidado, mas o esgotamento materno dura toda uma vida.
Por ser recorrente, estar relacionado ao trabalho não reconhecido como trabalho, à sobrecarga permanente, à falta de recursos e suporte e desencadear diversos sintomas, este cansaço crônico já é reconhecido como um tipo de burnout: um esgotamento físico, mental e emocional profundo. Por isso, muitas vezes, não melhora apenas com descanso físico. Ainda que ele seja fundamental.
Neste texto, eu dei um relato pessoal e trouxe alguns números sobre o trabalho invisível, não reconhecido e não remunerado que costuma ser o trabalho de cuidado, incluindo o trabalho reprodutivo: a pesquisa “Tempo de cuidar”, da ONG Oxfam, mostra que mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado — uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global — mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo.
Já a pesquisa Esgotadas, feita pela ONG Think Olga demonstra que as mulheres sofrem mais com sintomas da sociedade do cansaço: no Brasil, dedicam o dobro de tempo dos homens nas tarefas de cuidado, segundo dados do IBGE. Em um ano, as mulheres gastam 1.118 horas (47 dias) nessas tarefas, enquanto os homens dedicam apenas 572 horas (23 dias).












