"A planilha registra a nota. O BNC Amazonas revelou a história por trás dela. Agora, a memória fará o resto".>Depois da festa do campeão até a madrugada deste domingo (5 de julho), em Manaus, Parintins volta lentamente ao ritmo do rio Amazonas. O festival termina na arena, mas continua vivendo na memória de quem aprendeu que o boi-bumbá nunca diz adeus, apenas espera o próximo fim de junho.
Depois da última nota anunciada pela comissão julgadora, termina a disputa.
Depois da festa do campeão, terminam os fogos.
Mas não termina o festival.
Pouco a pouco, as alegorias começam a voltar aos galpões.
As fantasias são cuidadosamente guardadas.
Os instrumentos silenciam.
O bumbódromo volta a ser concreto.
A ilha reaprende um sentimento que conhece há mais de um século.
A saudade.
Não a tristeza da despedida definitiva.
A saudade boa.
Aquela que já nasce acompanhada da certeza do reencontro.
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Há um festival que nenhuma câmera consegue mostrar
Quem acompanhou o Festival Folclórico de Parintins pela televisão ou pela internet assistiu a um espetáculo grandioso.
Quem esteve na arena levou para casa algo impossível de transmitir por qualquer tela. E, igualmente, de esquecer.
O chão vibrando sob os pés quando a Marujada de Guerra ou a Batucada anunciavam a entrada do boi.
O silêncio absoluto da torcida adversária durante a apresentação do rival.
O abraço a cada evolução perfeita.
A ansiedade que antecede a chamada do boi e a força do som do tambor.
A lágrima que insiste em surgir quando o boi deixa a arena pela última vez.
São lembranças que não cabem em vídeos.
Passam a morar na memória.
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Uma ilha cercada de água e magia
Existe algo extraordinário em Parintins.
No coração da Amazônia, cercada pelas águas barrentas do maior rio do mundo e abraçada por uma floresta exuberante, uma cidade inteira transforma sua identidade em arte sem exigir da natureza o preço dessa celebração.
Quando o festival termina, o rio continua seguindo seu curso.
As árvores permanecem de pé.
Os pássaros continuam ocupando o céu.
A floresta permanece exatamente onde sempre esteve.
O espetáculo passa.
A Amazônia permanece.
Talvez seja justamente por isso que Parintins emocione tanto.
Porque não representa uma vitória sobre a natureza.
Representa uma homenagem a ela.
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Muito antes de jornalistas tentarem explicar esse sentimento, os compositores dos bois já o haviam transformado em poesia.
Nas décadas em que o festival era realizado nos dias 28, 29 e 30 de junho, Caprichoso e Garantido costumavam encerrar aquele ciclo cantando a saudade.
Não era tristeza.
Era promessa.
As toadas de despedida lembravam ao torcedor que o boi apenas voltava para o curral, aguardando pacientemente o reencontro no fim de outro junho.
Ao resgatar essa tradição, o BNC Amazonas presta homenagem aos compositores que eternizaram um dos sentimentos mais profundos do festival: a certeza de que a despedida faz parte da própria festa.
Para ouvir
As toadas de despedida ajudam a compreender a emoção que permanece na ilha depois que termina o Festival Folclórico de Parintins.
- “Canto de despedida” – Caprichoso
Compositor: Lélio Lauria
Caprichoso urrou
Silêncio meu povo pediu
Minha voz serenou
Nem mais um canto se ouviu
Boi contrário calou
O brilho e a beleza sentiu
Foi tudo tão lindo que Deus abençoou[…]
Vem boi caprichoso
Vem depressa não demora
Morena não chora
No outro ano eu vou voltar
“Orvalho da ilha” – Caprichoso
Compositor: Lélio Lauria
Meu povo já não canta
Meu tambor já parou
No orvalho da ilha
Minha voz serenouSó resta a saudade
No rufar do tambor
Na Lua que descansa pro boi caprichoso
Mostrar seu valorEu vou! Outro ano eu vou voltar!
- “Despedida” — Garantido
Compositor: Tadeu Garcia
Esse verso do amo é sinal de partida
E um galo cantou nossa despedida
Sentimos saudade a nos invadir
Agora vaqueiro
Vem buscar meu boi de raça
Com um trato de carinho
E oriente o seu caminho
Não se esqueça
De agradecer na baixa
Pro São José que é o abrigo
De todos os amigos
Ao descer o rio
De encontro ao seu campo
Florido em vermelho e branco
Reinará sempre feliz
“Toada da saudade” — Garantido
Compositor: Enéas Dias
Amor
Meu amor
É a despedida
Dessa linda viagemAmor
Meu grande amor
Que falta imensa vais fazer
Nessa cidadeEu vou
Com os amigos cantar
Nas rodas de toada
Batucar essa saudadeAlguns cantarão daqui
Outros da eternidade[…]
Recordarei
Da alegria na festa
Da nossa paixão
Com um coração na testa
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Há quem pense que o festival termina quando se apagam as luzes do bumbódromo.
Não termina.
Ele apenas muda de lugar.
Volta para os galpões.
Para o violão do compositor.
Para o caderno do artista.
Para o maçarico do soldador.
Para a máquina da costureira.
Para o ensaio da Marujada.
Para a Batucada.
Para a criança que sonha vestir uma fantasia pela primeira vez.
O festival passa os outros onze meses sendo construído em silêncio.
A viagem da planilha
Durante esta série, o BNC Amazonas decidiu fazer o caminho inverso da apuração.
Enquanto os jurados transformaram apresentações em números, nós procuramos devolver aos números as histórias que lhes deram origem.
Descobrimos que um décimo nunca nasce por acaso.
Que uma justificativa explica muito mais do que uma nota.
Que diferentes olhares podem construir um julgamento consistente.
E que uma planilha também pode emocionar.
Mas, aprendemos algo ainda mais importante.
A planilha explica como nasce um campeão.
A memória explica por que o festival nunca termina.
Agora os tambores descansam.
Os galpões silenciam.
As luzes da arena se apagam.
Mas, em algum lugar da ilha, alguém já começou a desenhar uma nova alegoria.
Outro compositor procura uma nova melodia.
Outra criança sonha defender seu boi.
É assim que Parintins vence o tempo.
Não aprendendo a dizer adeus.
Aprendendo a esperar.
Porque quem ama Caprichoso e Garantido sabe que o calendário continua andando.
E que, quando junho voltar a florescer sobre as águas do Amazonas, a ilha voltará a respirar no compasso do boi-bumbá.
Até lá, permanecerá aquilo que nenhuma comissão julgadora consegue medir.
A saudade.
Porque, em Parintins, a saudade também faz parte do espetáculo.
A memória continua
Ao longo de cinco capítulos, esta série procurou explicar a apuração do 59º Festival Folclórico de Parintins por um caminho pouco percorrido: o dos documentos oficiais, das justificativas dos jurados e da interpretação dos números.
Todavia, a maior descoberta não estava na planilha.
Estava na própria essência do festival.
Alguns lugares são lembrados pelo que aconteceu neles.
Parintins é lembrada pelo que continua acontecendo dentro de quem um dia viveu o festival.Até o próximo fim de junho.
Foto: Imagem gerada por IA













