Elenco virtuoso é destaque da encenação; montagem é uma coprodução com o Instituto Musica Brasilis e com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde será apresentada em julho
Se fosse para julgar pelo que vimos na sexta-feira à noite (15/05), no Teatro Amazonas, em Manaus, a ópera Salvador Rosa, de Carlos Gomes, deveria se chamar Isabella. Como em Tosca, de Puccini, é o destino trágico dessa personagem que conduz o espetáculo. A encenação de Julianna Santos reforça essa ideia. Mas o que realmente determinou essa minha percepção foi a extraordinária interpretação da soprano Eiko Senda.
Salvador Rosa, de Carlos Gomes, é a principal atração da 27ª edição do Festival Amazonas de Ópera, que acontece na capital amazonense desde 19 de abril e vai até 31 de maio. Sob direção musical de Luiz Fernando Malheiro e com a participação da Amazonas Filarmônica, do Coral do Amazonas e do Balé Folclórico do Amazonas, a ópera mantém o já conhecido padrão de qualidade do evento.
Salvador Rosa é uma ópera ambientada na turbulenta Nápoles do século XVII e inspirada na figura histórica de Salvador Rosa, artista que realmente existiu e que se destacou como pintor, poeta e músico. Na obra, Salvador alia-se ao rebelde Masaniello contra a dominação espanhola, ao mesmo tempo em que vive uma paixão avassaladora por Isabella, filha do opressor espanhol Duque d’Arcos. Misturando o drama político com a paixão irrefreável, a ópera transforma Salvador Rosa em um símbolo de liberdade e idealismo.
Baseada em libreto de Antonio Ghislanzoni, a ópera é em italiano e estreou em 21 de março de 1874 no Teatro Carlo Felice, em Gênova. Após a recepção fria que sua ópera anterior havia recebido, a mais “inovadora” Fosca, Salvador Rosa retoma com grande inspiração e competência a linguagem da grande ópera italiana da época, ou seja, do universo de Giuseppe Verdi.
É incrível a “energia lírica” que as produções do Festival Amazonas de Ópera fazem emanar do Teatro Amazonas. Demonstrando mais uma vez a sua veia musical e teatral, Luiz Fernando Malheiro imprime intensidade dramática e faz todos – orquestra, coro e solistas – se equilibrarem organicamente às dimensões relativamente pequenas do Teatro Amazonas. Tudo soa muito bem! Para alcançar isso – além do bom desempenho da Amazonas Filarmônica e do Coral do Amazonas, ambos impregnados de DNA operístico –, é preciso um bom e bem escolhido elenco de solistas.
E, se for para escolher um destaque, creio que é o elenco como um todo que merece especial reconhecimento. Em primeiro lugar, a já citada interpretação arrebatadora da soprano Eiko Senda. Além de sua competência e maturidade vocal, Eiko entregou uma atuação cênica de grande dramaticidade. Foi igualmente muito boa a interpretação do tenor Enrique Bravo, que fez Salvador Rosa. Ainda que teatralmente menos presente – talvez até por uma escolha da direção – Bravo exibiu voz bem timbrada e soante em todos os registros e protagonizou passagens de grande emoção.
Masaniello foi interpretado pelo barítono Sunu Sun (o cantor venceu, no ano passado, o Prêmio Carlos Gomes oferecido pelo FAO como premiação especial do Concurso de Ópera Cascais, de Portugal). Formado na Alemanha, o jovem cantor conduziu bem o papel em boas intervenções. Com desenvoltura cênica, voz clara e de agudos fáceis, a soprano Maria Gerk foi sucesso no papel travesti do ajudante de Salvador, Gennariello. Também aqui tive a impressão de que a direção cênica optou por realçar a importância de Gennariello no contexto da obra. O baixo Luiz-Ottavio Faria interpretou, com toda a autoridade que a parte exige, o Duque D’Arcos. Com voz potente e timbre amadurecido, Faria revelou-se perfeito no personagem.
É necessário citar também os demais cantores do elenco, que garantiram o nível artístico do espetáculo: Cristhiano Silva (Conde de Badajoz), Humberto Sobrinho (Fernandez), Emanuel Conde (Corcelli), Mirian Abad (Irmã Ines / Bianca) e Roberto Paulo Silva (Irmão Lorenzo).
A encenação de Julianna Santos funcionou bem e ofereceu espaço propício para uma boa fluência dos acontecimentos. A montagem é criativa e bonita. Amplos painéis de pinturas a óleo de Salvador Rosa são baixados ou suspensos, delimitando diferentes espaços. Uma estrutura metálica oferece um plano cênico adicional. Em algumas cenas, um amplo pano de fundo com a reprodução de uma paisagem marítima pintada por Rosa completa o cenário (cenografia de Renato Theobaldo).
Talvez até pela maneira como a ópera foi concebida – nos dois primeiros atos a narrativa gira mais em torno da rebelião para a partir daí concentrar-se no amor proibido de Salvador e Isabella – achei, no todo, que a encenação cresceu ao longo da apresentação. Sem dúvida, também pela direção mais concentrada, é nos últimos dois atos que o espetáculo ganha uma enorme tensão dramática.
A ótima produção do Festival Amazonas de Ópera recupera e divulga, em alto nível, a pouco conhecida Salvador Rosa, mais uma prova da inspiração e do brilho musical e teatral de Carlos Gomes.
Salvador Rosa é uma coprodução com o Instituto Musica Brasilis e com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde deverá ser apresentada em julho.
[Nelson Rubens Kunze viajou a Manaus e assistiu à ópera Salvador Rosa a convite do Festival Amazonas de Ópera]
Veja abaixo fotos da montagem de Salvador Rosa produzida pelo FAO (divulgação, Saleyna Borges)
















