A discussão sobre o futuro da indústria no Amazonas passa pela transformação da floresta preservada em valor econômico agregado para os produtos fabricados na Amazônia. Especialistas ouvidos pelo Jornal do Commercio defendem que o Polo Industrial de Manaus avance além da função de gerador de empregos e passe a converter sua relação com a conservação ambiental em um diferencial competitivo capaz de fortalecer a posição da indústria amazonense nos mercados globais.
Para sustentar essa transformação, pesquisadores e representantes do setor produtivo apontam a necessidade de uma articulação permanente entre governos, empresas, universidades e centros de pesquisa. A proposta inclui a criação de um Conselho de Governança Multimodal Permanente para tratar infraestrutura e logística como política de Estado, substituindo o atual modelo de discussões concentradas em momentos de crise, como as grandes vazantes dos rios amazônicos.
A avaliação é do professor, doutor em Desenvolvimento Socioambiental e Economia, José Alberto Machado. Para ele, a próxima etapa de evolução do modelo econômico amazonense passa por uma associação mais direta entre atividade industrial, conservação ambiental e competitividade.
“O PIM deve evoluir de um modelo de renúncia fiscal para um modelo de valor agregado ambiental. A indústria é a guardiã da floresta por meio da viabilidade econômica urbana, e a logística é o gargalo que exige um pacto de governança regional inédito”, afirma.
A partir dessa perspectiva, Machado defende que o diferencial estratégico da indústria instalada em Manaus seja cada vez menos associado exclusivamente aos incentivos fiscais e cada vez mais à capacidade de demonstrar sua contribuição para a manutenção da floresta e para a construção de uma economia baseada em sustentabilidade, inovação e geração de riqueza.
“A indústria local pode se posicionar como o principal laboratório global de descarbonização e bioeconomia aplicada. O ativo estratégico aqui não é apenas a isenção fiscal, mas a capacidade de oferecer ao mercado global produtos com selo de proteção da floresta, transformando a localização de um desafio logístico em um diferencial reputacional imbatível em um mundo voltado ao ESG”, afirma.
A visão encontra pontos de convergência entre representantes da indústria e da academia ouvidos pelo Jornal do Commercio. Embora utilizem abordagens diferentes, os especialistas concordam que a principal contribuição do Polo Industrial de Manaus para a conservação da Amazônia está na capacidade de concentrar atividade econômica, empregos e oportunidades na capital amazonense, reduzindo pressões por ocupação econômica de áreas de floresta.
Machado define essa função como um “escudo econômico”. Segundo ele, ao gerar emprego e renda na área urbana de Manaus, o modelo reduz a dependência de atividades associadas ao avanço da fronteira agrícola ou à exploração predatória dos recursos naturais.

“A indústria deve atuar como um escudo econômico. Ao gerar emprego e renda concentrados na área urbana de Manaus, o PIM reduz a pressão antrópica (do homem) sobre a floresta primária, evitando que a população local dependa de atividades extrativistas predatórias ou do avanço da fronteira agrícola”, afirma.
O consultor e empresário Juarez Baldoíno também associa a presença da indústria ao fortalecimento econômico da capital amazonense. Para ele, o modelo industrial continua sendo um dos principais pilares da economia regional. “Sem um polo industrial, a economia da cidade seria de pouca expressão”, afirma.
Na avaliação de Baldoíno, a localização da atividade industrial em meio à Amazônia também pode ser utilizada como elemento de diferenciação comercial, associando a produção realizada em Manaus ao fortalecimento da economia urbana em uma das regiões ambientalmente mais estratégicas do planeta.
O professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), coordenador das Comissões de Competitividade e de Logística do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam) e diretor-adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Augusto César Barreto Rocha, observa que esse posicionamento já possui relevância dentro das estratégias de grandes grupos multinacionais instalados no PIM.
“Estar na Amazônia ajuda ao discurso ambiental das empresas. Isso é positivo para algumas empresas que valorizam a questão do meio ambiente. Há estudos que discutem esse efeito positivo demonstrado pelo Polo Industrial de Manaus. Esse é um aspecto relevante dentro da geopolítica das fábricas multinacionais”, afirma.
Localização não garante ‘indústria verde’

Apesar da convergência sobre a contribuição econômica do modelo para a manutenção da floresta em pé, os especialistas fazem uma distinção importante quando o debate se volta para o conceito de indústria verde. A avaliação predominante é que a simples localização geográfica das fábricas não é suficiente para atribuir essa classificação ao Polo Industrial de Manaus.
“A indústria verde está associada ao tipo de produto e à sua forma de fabricação, e não ao seu endereço”, afirma o consutlor Juazrez Baldoíno. Augusto César Barreto Rocha segue a mesma linha de raciocínio. Para ele, a construção de uma indústria efetivamente associada à floresta depende de uma conexão mais profunda entre atividade produtiva, ciência, inovação e biodiversidade amazônica.
“A gente vai ter uma indústria verde quando tivermos indústrias conectadas com a realidade local, conectadas com a natureza local, tendo como insumo a biodiversidade da Amazônia”, afirma.
É justamente nesse ponto que os especialistas identificam uma das principais oportunidades para o futuro do modelo. Na avaliação de José Alberto Machado, o Polo Industrial pode ampliar sua contribuição para o desenvolvimento regional ao fortalecer cadeias produtivas vinculadas à biodiversidade e aproximar a capacidade tecnológica instalada em Manaus do potencial econômico existente no interior do estado.
“O PIM não deve ser uma ilha de prosperidade cercada de floresta, mas o motor que processa a riqueza sustentável da Amazônia, integrando a alta tecnologia da eletrônica com a biotecnologia local”, afirma.
Barreto compartilha visão semelhante. O professor da Ufam também aponta a ciência, a pesquisa e a inovação como elementos centrais para aproximar a indústria da realidade amazônica. Segundo ele, a transformação do potencial da biodiversidade em produtos, processos e negócios depende de investimentos permanentes em conhecimento e da integração entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo.
“Não me parece apropriado dizer que o fato de estar aqui transforma a indústria em verde. A gente vai ter uma indústria verde quando tivermos indústrias conectadas com a realidade local, tendo como insumo a biodiversidade da Amazônia e utilizando os recursos com responsabilidade ambiental”, afirma.
Gargalos de infraestrutura
A consolidação dessa estratégia passa ainda pela superação dos gargalos logísticos e de infraestrutura que historicamente afetam a competitividade regional. Nesse contexto, Machado defende a criação de um Conselho de Governança Multimodal Permanente, reunindo poder público, setor produtivo, academia e sociedade civil para formular políticas de longo prazo para a Amazônia.
“O debate atual é fragmentado e reativo, focado apenas em crises de vazante ou manutenção de rodovias”, afirma.
Augusto César Barreto alerta para a desproporcionalidade nos investimentos feitos no pais entre as diversas regiões. “O que falta para aprofundar esse debate: falta investimento, faltam marcadores de investimento associado ao PIB do estado do Amazonas; 2,5% do PIB é o que eu venho defendendo, para que a gente consiga corrigir essa simetria histórica”, acrescentou.
A proposta busca transformar logística e infraestrutura em uma agenda contínua de planejamento regional, reduzindo a dependência de medidas emergenciais e ampliando a capacidade de articulação entre os diversos atores envolvidos no desenvolvimento amazônico. Para os especialistas, a consolidação dessa governança será decisiva para que a floresta preservada deixe de ser apenas uma característica geográfica do Amazonas e passe a representar um diferencial econômico cada vez mais relevante para a indústria instalada na região.













