Dois relatórios publicados hoje lançam uma nova luz sobre o debate mais importante neste momento entre os analistas que cobrem o setor financeiro: se a qualidade dos ativos dos bancos está mesmo piorando – e por quê.
No Itaú BBA, o analista Pedro Leduc disse que ao aumento da inadimplência e do endividamento das famílias nos últimos cinco anos tem a ver basicamente com uma mudança de mix estrutural do sistema financeiro, com as fintechs e os bancos menores (que tipicamente carregam um NPL maior) ganhando share de mercado.
Já na Goldman Sachs, o analista Tito Labarta se debruçou sobre os dados mais recentes do sistema, os do mês de abril, que mostram uma piora relevante na inadimplência, especificamente entre os bancos S3, um grupo que inclui o Banco Carrefour, Inter, Mercado Pago, C6, BRB e BMG.
Leduc diz que há duas realidades coexistindo em paralelo.
De um lado, os grandes bancos – como o próprio Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – têm reduzido sua exposição a créditos mais arriscados, como o empréstimo pessoal e o cartão de crédito para a parcela mais pobre da população, e vêm reportando melhoras no NPL.
De outro, os bancos digitais – como Nubank, Mercado Pago e Inter – vêm crescendo nesses produtos, que naturalmente têm um NPL maior.
Esses neobanks “efetivamente criaram uma nova oferta de crédito ao consumidor no Brasil. Suas estruturas de custo mais baixas e modelos de monetização baseados em ecossistema permitem conceder crédito a clientes de maior risco e menor renda – segmentos que normalmente não são economicamente atrativos para os bancos tradicionais,” escreveu Leduc.
Em cartões de crédito, por exemplo, as instituições financeiras não-S1 (ou seja, as que não são os cinco maiores bancos do País) responderam por cerca de 60% do crescimento do volume da indústria entre 2020 e 2025. Em empréstimos pessoais, responderam por 70%.
“Uma consequência natural disso é uma fatia crescente da indústria operando com níveis estruturalmente mais altos de inadimplência,” diz o relatório.
Leduc nota que os players não-S1 representam cerca de 45% da carteira nacional de cartões de crédito, mas uma parcela desproporcionalmente maior do estoque de inadimplência (55%). Nos empréstimos pessoais, o padrão é parecido (55% da carteira versus 60% do NPL).
A conclusão de Leduc é que “a crescente presença de novos entrantes está tendo impacto relevante sobre os níveis médios de inadimplência do sistema.”
Para ele, essas dinâmicas devem continuar, reforçando a necessidade de se interpretar com cautela os dados de inadimplência do BC ao avaliar as perspectivas de bancos individuais.
Analisando apenas os bancos S1, a qualidade do crédito na verdade tem melhorado. O NPL dos bancos S1 no crédito para famílias (excluindo o agro) saiu de 4,1% no quarto trimestre de 2022 para 3,5% no quarto tri de 2025. Já nos bancos S2 a S5, esse indicador subiu de 5,5% para 6,7% no mesmo período, puxando a média total de 4,4% para 4,5%.
No NPL de cartões de crédito, a dinâmica é parecida. Enquanto o indicador caiu de 7,7% para 6,5% nos bancos S1 nesse intervalo, ele subiu de 9% para 9,7% nos bancos S2 e S5.
Sobre o endividamento das famílias, Leduc diz que a explicação também vem do ‘efeito fintechs’ – já que o aumento da oferta de crédito “eleva o numerador em relação a um denominador de renda que já existia em grande parte.”
“O aumento da relação crédito/PIB das famílias no Brasil não significa necessariamente que as mesmas famílias estejam ficando mais alavancadas,” e sim que mais famílias estão tomando crédito novo, escreve o analista.
Em paralelo, os bancões parecem estar indo na direção contrária – reduzindo sua exposição a tomadores de maior risco. “As carteiras de crédito ao consumo dos bancos S1 vêm caindo como percentual do PIB nos últimos anos. O crescimento da relação crédito/PIB entre as instituições S1 tem sido puxado, em vez disso, por produtos direcionados (earmarked).”
Para Leduc, essa mudança sugere um menor comprometimento da renda dos clientes dos bancos S1 e uma menor exposição desses bancos a consumidores altamente alavancados – “dois importantes amortecedores contra uma eventual deterioração econômica.”
No relatório da Goldman Sachs, o ponto que deixou o mercado com a proverbial pulga atrás da orelha foi o aumento brutal no NPL de cartões de crédito, especificamente nos bancos S3.
Em dezembro, o NPL dos cartões destes bancos estava em 10,6%. Em abril, já havia disparado para 16,9%.
Como os dados são agregados, o relatório não consegue explicar de onde vem este aumento – o que levou os investidores a criar hipóteses.
“Ou tem algum erro nos dados, ou aconteceu alguma coisa esquisita nesse período, porque surgiu R$ 10 bi de perdas em quatro meses. Isso não é normal,” disse um gestor que acompanha o setor.
“Uma tese possível é que isso possa ser reflexo das carteiras falsas que o BRB comprou do Master ou de carteiras muito ruins que ele pode ter comprado do Will Bank. Se não for isso, tem que ter dado uma M muito grande nos outros bancos S3.”
A alta dramática no NPL dos S3 em abril puxou a média do sistema para cima, já que o NPL dos S1 caiu de 7,7% para 7%, e o dos bancos S2 subiu marginalmente, de cerca de 10,1% para 10,4%.
“Quem quiser ver o copo meio cheio, vai dizer que as fintechs estão pegando esse cliente mais pobre, que é lucrativo para elas porque elas têm um custo menor do que os grandes bancos,” disse outro gestor. “E quem quiser ver o copo vazio vai dizer que elas vão se enrolar com isso, porque este cliente está piorando mesmo.”
“De qualquer forma, o ponto do relatório [do Itaú] é que os grandes bancos não estão com problema de crédito.”
Nas últimas semanas, a piora na qualidade dos ativos fez o Inter e o Mercado Livre cairem 15% no dia em que reportaram seus resultados do primeiro tri. O Nubank, que também reportou uma piora no NPL e nas provisões, chegou a cair 10% no after market, mas a ação se recuperou parcialmente depois da call da empresa com os analistas.












