O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) suspendeu temporariamente as propagandas de casas de apostas no canal CazéTV, do youtuber Casimiro Miguel, após uma investigação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), motivada por uma ação da deputada Erika Hilton. O caso levanta questões sobre a regulação seletiva no Brasil, onde a CazéTV, que rivaliza com grandes emissoras, enfrenta restrições enquanto outras plataformas, como a Globo, continuam a veicular anúncios de apostas.
Por Adriano Dorta, do Instituto Liberal
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) emitiu uma medida liminar contra as propagandas de casas de apostas, as chamadas bets, no canal CazéTV, do youtuber Casimiro Miguel, o Cazé. O objetivo da medida liminar é suspender provisoriamente as propagandas até o julgamento final do caso.
Além do Conar, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão federal vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, abriu investigação contra a CazéTV após uma ação movida pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Esse acontecimento mostra como a sociedade brasileira é mais parecida com uma sociedade mercantilista do que com uma sociedade capitalista.
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O youtuber Cazé ficou famoso com suas lives sobre futebol. Com sua ascensão, criou uma base de espectadores nesse segmento. Cazé atingiu o auge dessa trajetória ao conseguir transmitir alguns jogos da Copa do Mundo de 2022. Antes disso, a emissora Globo tinha a exclusividade da transmissão do evento. Neste ano, o canal do youtuber conseguiu ir além: atingiu 18,3 milhões de dispositivos conectados simultaneamente contra 22,8 milhões da TV Globo. Um youtuber que começou fazendo lives no quarto de sua casa conseguiu rivalizar com o maior canal de televisão do país.
Para isso, o canal buscou recursos por meio de patrocinadores. O modelo é basicamente o mesmo usado por empresas como o Google. O acesso ao Google é gratuito; isso significa que você não paga diretamente pelo serviço. O lucro do Google vem dos patrocinadores, que pagam para ter sua marca divulgada nas páginas da empresa. Quanto maior o acesso, maior é o preço que o Google pode cobrar das empresas para anunciá-las.
Cazé fez a mesma estratégia. Ele e sua equipe foram em busca de patrocinadores que pagariam para ter suas marcas anunciadas nas propagandas do canal. Entre essas marcas, estão as bets.
Esse caso da CazéTV só aumenta a percepção de que a sociedade brasileira vive muito mais em um sistema mercantilista do que em um sistema capitalista. O argumento utilizado para que o Estado brasileiro fosse acionado contra a CazéTV foi o uso de propagandas de bets. Porém, a emissora que disputa audiência com o canal do YouTube apresentou o programa Big Brother Brasil entre 12 de janeiro e 21 de abril de 2026, e era possível ver propagandas de bets, mas nada aconteceu.
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Também é possível ver propagandas de apostas em jogos do Campeonato Brasileiro, o Brasileirão, no canal Premiere — um canal que pertence ao Grupo Globo.
Para piorar a situação, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) proibiu a CazéTV de disputar os direitos de transmissão da Copa do Brasil. O problema é que a organização, a regulamentação e a negociação das cotas de televisão, dos patrocinadores e dos naming rights são responsabilidades da CBF, e o nome oficial do torneio neste ano é Copa Betano do Brasil, em referência a uma casa de apostas. Além disso, o campeonato conta com mais duas casas de apostas como patrocinadoras: a Betnacional e a Superbet.
Este texto não tem a intenção de expressar a minha opinião sobre as casas de apostas e suas propagandas na televisão. O objetivo é refletir sobre por que agentes públicos, políticos e a entidade privada que organiza o futebol no Brasil reagiram dessa forma contra um simples canal de YouTube. A CBF alega que a CazéTV não atende aos critérios financeiros. Porém, o canal conseguiu acesso a um evento muito maior, que é a Copa do Mundo, mas não passou nos critérios da CBF.
Em uma sociedade capitalista saudável, a regra deve ser geral, previsível e aplicada de maneira igual a todos os participantes do setor. Se propaganda de apostas é considerada abusiva, ela deve ser fiscalizada em todos os veículos, em todos os campeonatos e contra todos os agentes econômicos envolvidos. O problema está em usar a regulação de forma seletiva, especialmente quando o alvo é um novo concorrente que ameaça estruturas já estabelecidas. É nesse ponto que o Brasil se aproxima mais de uma sociedade mercantilista do que de uma sociedade genuinamente capitalista.
No capitalismo, empresas competem para conquistar consumidores. No mercantilismo, empresas competem para conquistar proteção, autorização, privilégio e tolerância do poder político. Em uma ordem capitalista, o sucesso da CazéTV deveria ser medido pela capacidade de atrair audiência, patrocinadores e entregar um produto que o público deseja consumir. Em uma ordem mercantilista, o sucesso passa a depender também da capacidade de sobreviver ao emaranhado de regras, pressões, órgãos, entidades e decisões que controlam o acesso ao mercado.
Uma ruptura na transmissão
A CazéTV representa justamente uma ruptura nesse setor. Um canal que começou na internet, com linguagem própria, mais leve e um orçamento muito menor conseguiu competir com empresas tradicionais que dominaram a transmissão esportiva no Brasil por décadas. Isso é capitalismo em sua forma mais clara: um novo entrante usando tecnologia, inovação e preferência do consumidor para desafiar incumbentes. Mas a reação das instituições ao crescimento desse novo competidor revela uma realidade diferente.
Quando o novo entrante cresce, incomoda e começa a disputar audiência, direitos de transmissão e dinheiro publicitário, o jogo deixa de ser apenas econômico e passa a ser político-regulatório. De repente, aquilo que era tolerado em vários espaços do futebol brasileiro passa a ser tratado como um problema urgente quando aparece no canal que ameaça a velha estrutura. A Globo é a emissora que mais recebe repasses do orçamento de publicidade do governo. Sob o governo Lula, a Globo recebeu R$ 270 milhões, o que representa 25,6% do total do orçamento entre 2023 e junho de 2026.
Para fins de comparação, o valor recebido pela Globo é 118% maior que o da Record, que recebeu R$ 122 milhões e é a segunda maior recebedora de recursos de publicidade da Presidência da República. A revista Oeste divulgou que a emissora já teria recebido R$ 10,2 bilhões entre 2000 e 2016. A contradição é evidente. O futebol brasileiro está profundamente financiado por casas de apostas. Há bets nos nomes dos campeonatos, nas placas de publicidade, nas transmissões, nos uniformes e nos intervalos. Mas, quando a CazéTV usa esse mesmo mercado publicitário para viabilizar sua transmissão gratuita e competir com gigantes tradicionais, surge uma pressão regulatória e institucional.
Um caso de poder
No mercantilismo clássico, reis concediam monopólios, licenças e privilégios a grupos próximos ao poder. O comerciante bem-sucedido não era necessariamente aquele que produzia melhor, mas aquele que conseguia comprar essas concessões dos reis. No Brasil atual, a lógica é parecida. A disputa econômica muitas vezes não é decidida pelo consumidor, mas por órgãos reguladores, decisões administrativas ou judiciais e relações políticas.
Em vez de ser punida pelos consumidores, a CazéTV foi vítima do sistema mercantilista contemporâneo brasileiro – a estrutura que pune quem quer ser o “getting ahead” para proteger os que são “staying ahead”. O grupo do staying ahead é composto por empresas e empresários que já estão no topo. Trata-se de uma elite econômica consolidada, cuja sobrevivência depende, em grande medida, de lucros e ganhos derivados de rent seeking. Para esse grupo, a concorrência deixa de ser oportunidade e passa a ser ameaça; por isso, seus membros tendem a usar o poder político para erguer barreiras à entrada, proteger mercados e a ordem existente excluindo ou barrando novos concorrentes.
Já o grupo do getting ahead é formado por aqueles que querem “chegar lá”: empreendedores inovadores que, em geral, não têm acesso direto ao poder político. Para eles, a única via legítima de ascensão é a inovação, a criação de valor, a expansão da oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas. O espírito empreendedor é, por natureza, criativo o suficiente para driblar barreiras e encontrar brechas — desde que essas barreiras não sejam institucionalmente intransponíveis. Uma sociedade mais livre é aquela em que esse segundo grupo consegue desafiar o primeiro em vez de ser bloqueado por uma muralha de privilégios legais.
Por isso, o caso CazéTV não é apenas sobre bets. É sobre privilégio e poder. É sobre um sistema econômico em que novos entrantes podem até crescer, desde que não cresçam demais. Porque, quando crescem a ponto de ameaçar os donos tradicionais do setor, descobrem que, no Brasil, o sucesso depende da aproximação com os “reis”. Enquanto, em uma sociedade capitalista, a eliminação dos concorrentes depende da decisão dos consumidores, no mercantilismo contemporâneo, essa eliminação ocorre por meio do uso seletivo das regras pelos donos do poder regulador, político ou judicial.
Leia também: “O jogo virou”, texto de Anderson Scardoelli e Eugenio Goussinsky publicado na Edição 329 da Revista Oeste
(*) Adriano Dorta é integrante do Instituto Liberal e estudante de economia política e escolha público












