Um novo medicamento experimental para o tratamento da calvície tem despertado atenção da comunidade médica após apresentar resultados considerados animadores em um estudo clínico. Desenvolvido pela biofarmacêutica Veradermics, o VDPHL01 promoveu melhora da queda de cabelo em até 86% dos pacientes após seis meses de tratamento, índice que faz especialistas apontarem o composto como um dos avanços mais relevantes das últimas décadas no combate à alopecia androgenética.
Apesar dos resultados positivos, o medicamento ainda está em fase de desenvolvimento clínico e não recebeu aprovação de órgãos reguladores como a FDA, nos Estados Unidos, nem da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). Caso obtenha o aval das autoridades sanitárias, a expectativa é que o tratamento chegue ao mercado apenas entre o fim de 2027 e o início de 2028.
Em entrevista a O TEMPO, a dermatologista do Hospital Felício Rocho, Dra. Mariana Menezes, explica que a principal inovação do VDPHL01 está na forma como o medicamento é administrado. “O VDPHL01 é um medicamento oral, experimental e de liberação prolongada. Você ingere a medicação e ela vai sendo liberada de forma constante ao longo do tempo. Já o minoxidil tradicional é uma loção de uso tópico, aplicada diretamente no couro cabeludo, onde exerce sua ação”, afirma.
O que torna o novo medicamento diferente
O princípio ativo do VDPHL01 é o minoxidil, substância já conhecida pelos dermatologistas no tratamento da queda de cabelo. A diferença é que a nova formulação foi desenvolvida especificamente para uso oral com liberação lenta, permitindo que o medicamento seja absorvido gradualmente pelo organismo.
No estudo divulgado pela Veradermics, participaram 519 homens com alopecia androgenética, divididos entre grupos que receberam uma dose diária, duas doses diárias ou placebo. Após seis meses, 79,3% dos pacientes que utilizaram uma dose ao dia relataram melhora da queda dos fios, percentual que chegou a 86% entre aqueles que receberam duas doses diárias.
Os pesquisadores também observaram melhora objetiva no crescimento capilar, identificando aumento da densidade dos fios em 72% dos pacientes do grupo de dose única e em 84,4% daqueles que utilizaram duas doses diárias.
Segundo a Dra. Mariana Menezes, a tecnologia de liberação prolongada pode representar uma vantagem importante em relação ao minoxidil oral manipulado já utilizado atualmente em alguns tratamentos. “O minoxidil oral utilizado na dermatologia é prescrito em baixas doses e, normalmente, não está associado a efeitos cardiológicos graves. No entanto, depois de ingerido, ele atinge um pico de concentração no organismo. O VDPHL01, por ter liberação lenta, é disponibilizado de forma gradual, evitando esses picos. Isso tende a reduzir a ocorrência de efeitos adversos”, explica.
Os resultados apresentados pela empresa reforçam essa hipótese. Segundo o estudo, não foram registrados eventos adversos graves relacionados ao tratamento nem efeitos cardíacos considerados de interesse especial durante o acompanhamento dos participantes.
Tratamento da calvície evoluiu nos últimos anos
Apesar do destaque dado ao VDPHL01, a dermatologista Mariana Menezes ressalta que o tratamento da alopecia androgenética já evoluiu significativamente nos últimos anos. Se antes as opções se restringiam, em grande parte, ao minoxidil tópico e aos inibidores da 5-alfa-redutase para alguns homens, hoje os pacientes contam também com transplante capilar, terapias regenerativas, lasers e o minoxidil oral.
Segundo a especialista, cada novo estudo baseado em evidências amplia as ferramentas disponíveis aos dermatologistas e aumenta as chances de alcançar resultados cada vez melhores no tratamento da queda de cabelo. “Quanto mais pesquisas consistentes e tratamentos baseados em evidências tivermos, maiores serão as opções e as ferramentas para alcançar bons resultados junto aos pacientes.”
Especialista alerta para expectativa dos pacientes
Por afetar diretamente a autoestima, a alopecia androgenética faz com que pacientes criem grande expectativa em torno de novos tratamentos. No entanto, a dermatologista alerta que a doença é crônica e exige terapias seguras, eficazes e sustentáveis a longo prazo. “O paciente busca uma solução que transforme completamente sua experiência, que devolva um cabelo mais denso e fios mais espessos. Mas precisamos lembrar que a alopecia androgenética é uma doença crônica. O tratamento precisa ser seguro, eficaz e sustentável no longo prazo. Não adianta recorrer a terapias com pouco embasamento científico”, ressalta.
Ela lembra que o VDPHL01 ainda precisa percorrer as etapas finais de avaliação antes de ser disponibilizado para uso clínico.”É um medicamento experimental que ainda está sendo validado. Somente após demonstrar segurança e eficácia de forma definitiva poderá ser liberado para comercialização e utilizado rotineiramente nos consultórios.”
Quem poderá utilizar o novo tratamento?
Embora o estudo tenha sido realizado apenas com homens, a dermatologista explica que o minoxidil é uma substância que pode beneficiar diferentes perfis de pacientes, desde que haja indicação médica.
“O minoxidil tem potencial de uso em diversos casos de perda de cabelo. Mas cada paciente possui características próprias. É preciso identificar corretamente qual é o tipo de alopecia, considerar idade, sexo, intenção de gravidez, amamentação e outras condições clínicas antes de definir o tratamento mais adequado.”
Segundo a especialista, mesmo que o VDPHL01 seja aprovado futuramente, sua indicação dependerá das evidências de segurança para cada grupo de pacientes. “Não basta apenas a medicação estar disponível. Precisamos saber se ela é segura para gestantes, mulheres que amamentam e outros perfis específicos. Cada caso deve ser avaliado individualmente.”













