A microbiota vaginal protege a mulher contra microrganismos que podem causar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Essa proteção vem, principalmente, dos lactobacilos, um tipo de bactérias responsável por deixar a vagina ácida e repelir os agentes que podem causar doenças.
Quando a mulher sofre de vaginose bacteriana, o equilíbrio na microbiota é quebrado. O predomínio de lactobacilos deixa de existir e o número de bactérias, especialmente a Gardnerella vaginalis, cresce. Isso facilita o surgimento de ISTs, doença inflamatória pélvica e complicações durante cirurgias ginecológicas e gravidez.
Veja também: Como prevenir a vaginose bacteriana
Vaginose bacteriana em mulheres lésbicas
O quadro de vaginose bacteriana pode afetar qualquer pessoa do sexo feminino, mas estudos recentes indicam que mulheres que fazem sexo com outras mulheres estão mais sujeitas ao problema.
O projeto “Cuidando da saúde da mulher que faz sexo com mulher”, realizado por pesquisadoras do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Univerisidade Estadual Paulista (FMB/Unesp) em parceria com o Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), avalia essa relação desde 2014.
Em 2023, o grupo publicou um estudo comparando 149 mulheres com práticas homossexuais, 80 mulheres com práticas bissexuais e 224 mulheres com práticas heterossexuais. A prevalência de vaginose bacteriana foi, respectivamente, de 35,6%, 34,3% e 23,8%, demonstrando o risco aumentado em mulhers que fazem sexo com outras mulheres.
Os fatores de risco encontrados, porém, eram gerais:
- escolaridade: mulheres mais escolarizadas apresentaram uma diminuição na prevalência;
- troca de parceiro sexual nos últimos três meses, o que aumentou a prevalência;
- uso de brinquedos e acessórios sexuais, o que também aumentou a prevalência;
- presença de clamídia, o que duplicou o risco de vaginose bacteriana
Por que, então, mulheres lésbicas estão mais suscetíveis?
“Dada a prevalência elevada que encontramos e os indícios relacionados ao uso de acessórios sexuais, isso nos faz pensar que a troca de fluidos é o que causa esse aumento da prevalência de vaginose bacteriana”, explica Marli Duarte, enfermeira, professora associada da FMB e coordenadora do estudo.
No entanto, essa é apenas uma hipótese. Segundo Duarte, a sexualidade das mulheres lésbicas é constantemente invisibilizada, inclusive durante os atendimentos em saúde. O Relatório Técnico da Agenda Mais SUS de 2023 mostra que 40% das mulheres lésbicas optam por não revelar ao médico a sua orientação sexual. Entre as que revelam, 28% dizem receber um atendimento médico acelerado e 17% não recebem a solicitação de exames que consideram importantes.
“Nós queremos compreender melhor ‘como’ elas apresentam essa maior prevalência. Estamos planejando um estudo longitudinal com casais de mulheres que fazem sexo com mulheres, acompanhando-os ao longo do tempo. Isso poderá nos ajudar a entender se as bactérias encontradas na microbiota vaginal entre as parceiras são as mesmas. Se conseguirmos detectar isso, poderemos mostrar que, de fato, na mulher que faz sexo com mulher, a vaginose bacteriana é sexualmente transmissível”, diz a pesquisadora.
Hoje, a vaginose bacteriana não é considerada uma infecção sexualmente transmissível, e sim fruto de um desequilíbrio da flora vaginal que faz com que diminua o número de lactobacilos e aumente o de de bactérias anaeróbias. Isso porque, até onde se sabe, a transmissão não é via sexual: a doença pode apenas ser desencadeada por relações sexuais – o sêmen tem pH mais elevado que o da vagina – em pessoas predispostas.
Sintomas e prevenção da vaginose bacteriana
Metade das mulheres com vaginose bacteriana não apresenta sintomas. A outra metade pode sentir um odor desagradável, corrimento branco-acinzentado ou esverdeado na calcinha e, às vezes, dor pélvica ou dor durante a relação sexual.
Para prevenir, a recomendação é:
- realizar acompanhamento ginecológico anualmente: mulheres lésbicas devem ter atenção redobrada, porque as alterações na microbiota podem passar despercebidas;
- higienizar os brinquedos sexuais: lavar com água e sabão antes e depois de cada uso e utilizar preservativos quando eles forem compartilhados;
- evitar duchas vaginais: elas alteram o pH vaginal.













