Haiti na Copa: entre lixo e violência, país vive a desesperança


Le Cap era o principal local do país e foi a última a ser tomada, na Batalha de Vertières, aquela imagem que a Fifa mandou tirar da camisa do Haiti de forma escandalosa. Napoleão Bonaparte mandou a maior esquadra já enviada pela França (à época), 40 mil homens, para reconquistar Saint Domingue. Seria só uma escala protocolar. O plano era depois estabelecer, a partir do Haiti e da Louisiana, o domínio total do que chamamos hoje de Golfo do México. A Louisiana (que leva esse nome em homenagem ao rei Luís 14) ia de Nova Orleans, onde está efetivamente o estado hoje, até lá em cima, onde hoje é Minnesota, toda a extensão do rio Mississippi, o principal dos Estados Unidos atuais.

Atenção, pois. Foi a queda da França no Haiti que fez com que Napoleão vendesse a Louisiana para os americanos a preço de banana, e aquilo significou basicamente que os EUA dobrassem de tamanho e começassem uma grande expansão para o oeste.

O monumento de Vertières está bem preservado, considerando tudo o que vi no Haiti. Existe uma enorme grade o separando de uma espécie de estrada meio de asfalto meio de terra, com poeira por todos os lados sendo levantada pelos triciclos que tomam conta de Cabo Haitiano. Com a fuga de tanta gente de Porto Príncipe, a cidade do norte, que tinha 500 mil habitantes, já estaria com 1 milhão, segundo alguns, e até 3 milhões, segundo outros – logicamente, não há dados oficiais.

Não parece haver nada oficial, na verdade. No Haiti, você não vê lojas, bancos, caixas eletrônicos, escritórios. Eu entrei em um supermercado (chamaríamos assim), havia dois guardas com metralhadoras na porta. É difícil compreender como as pessoas vivem, como a economia gira. Mas elas vivem. Elas estão lá e elas produzem lixo, muito lixo. Em Cabo Haitiano, uma cidade que teria tudo para ser mais uma pérola do Caribe, um destino turístico como tantos outros, o lixo da cidade é todo depositado na orla. Sim, na praia. É um enorme lixão que se mistura com a cidade, com gente passando, os triciclos, poeira subindo e buzinas e buzinas e mais buzinas.

O lugar mais triste e pobre que eu havia visitado até hoje era o Zimbábue. Mas a imagem de Le Cap e do lixo é realmente impressionante. É um horror.

Essa região foi um dia o centro colonial, mas não sobrou praticamente nada, porque Le Cap foi transformada em cinzas mais de uma vez durante o período de revolução (de 1793 a 1803). Essa é uma tática que já virou tradição haitiana. Quando um exército ou grupo está a ponto de perder a localidade, bota fogo, destrói tudo, é o “presente” para quem vem a seguir. A tática é a mesma hoje, 200 anos depois, no tão citado conflito entre gangues na capital – os territórios são constantemente destruídos, conquistados, perdidos, destruídos. Não sobra nada e a população tem que se mandar para outro lugar. E quem ganha não poupa os derrotados – aliás, Dessalines, o capitão que declarou a independência haitiana, promoveu o genocídio da população branca após a guerra, o que precisa ser citado, já que fez parte do contexto de boicote das potências ao país.





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